DOCE COMO MEL
Um conto sobre a inocência da infância e o amor entre pai e filho
Alessandro Abdala*
Eu estava deitado na laje do chiqueiro esquentando sol e brincando com os leitõezinhos quando meu pai chegou e disse:

- Arruma o balde grande e um saco de linho velho que hoje nós vamos "tirar mel".

Eu me levantei prontamente e por alguns segundos fiquei olhando pra figura do meu pai ali parado, com aquela cara braba e aqueles olhos tristes que são a marca registrada da nossa família.

Então eu disse: - Oba!

Saí correndo e frui pro paiol procurar um saco velho. Eu nunca tinha tirado mel, mas devia ser melhor do que matar passarinho, e isso eu já sabia que era bom.

Enquanto revirava baús antigos e jacás de bambu à procura do saco encontrei um ninho de ratos com uns ratinhos miúdos e peladinhos, que estavam dormindo enrolados na palha seca. Me distraí com os ratos e fiquei pensando em como eles pareciam bebezinhos quando ainda estão na barriga da mãe... Foi o bastante pro velho se impacientar:

- Como é o criatura! Vai ou não vai!?

Quando olhei para ele já estava com o balde e o saco na mão me esperando parado na porta.

- V'ambora!

Naquela época a gente tinha uma variant 76 que servia para carregar as bananas que o meu pai colhia e vendia na cidade.

Um pouco antes do povoado de Santa Maria, passava um ribeirão de águas verdes como as do Borá, garapa fresca escorrendo por entre grandes pedras negras e ovaladas.

A nossa Variant atravessou o ribeirão com a água entrando pelo assoalho e parou numa porteira, começo duma capoeira. Depois da porteira, para além do vale, no coração do mato – o pai explicou – é que tinha o mel.

- Abre lá! O pai disse.

Pulei logo da Variant e corri pra porteira. Tentei baixar o trinco mas não consegui, a porteira era muito pesada. Cravei as unhas com força no pedaço de madeira. Os meus braços tremeram e o trinco nem se moveu. Meus dedos ardiam e eu ouvia o barulho impaciente do motor da Variant:

- Vrum! Vrum! E o meu pai:

-Abre esta porcaria! Oh moleza!

–Eu não podia, a porteira era tão pesada quanto o coração dentro do meu peito.

O velho bateu a porta do carro com um estrondo assustador. Chegou até a porteira e com uma só mão desatou o trinco.

- É assim!

Fiquei sentado no barranco olhando pra ele e pensando nos ratinhos pelados dormindo na palha.

Entramos de novo na variant e seguimos alguns minutos por uma estradinha de terra batida que cortava a mata, até que meu pai parou o carro, descemos e ele me deu o balde pra levar.

Já estava escurecendo e dentro daquela mata fechada parecia que já era noite alta. Fomos caminhando por uma grota onde o chão era coberto de folhagens secas, e o meu pai disse que ali, no passado, antes mesmo da Cia Mogiana, tinha sido estrada de carro-de-bois, e que tudo que vinha pra nossa cidade passava por aquele lugar.

Eu fiquei pensando que debaixo das folhas devia de ter lagartixas.

Foi quando ouvi meu pai dizer: - É ali!

Na nossa frente estava uma figueira imensa que devia de ter uns cem anos, toda coberta por cipós cujas hastes pendiam da copa como enormes serpentes flutuantes. Na borda, uns galhos largos e baixos desciam até quase o chão.

E era num desses galhos, em meio aos cipós entrelaçados que estava a colmeia.

Meu pai acendeu o fogo no saco de linho e logo em seguida apagou, produzindo uma fumaça densa e ardida que fazia a gente chorar sem estar triste.

Chegou fumaça nas abelhas e elas se espalharam, deixando ver os favos dourados de mel. O pai cortava os favos com o canivete e me entregava para colocar no balde, de vez em quando levava uma picada e gritava:

- Puta merda!

Eu me distraia vendo as abelhas tontas zunindo com a fumaça, e esquecia de segurar os favos. O meu pai se arreliava:

-Presta atenção criatura! Pega logo isso!

*

A noite era densa e a luz pálida das estrelas desenhava sombras fantasmagóricas nas raízes das árvores. Numa clareira no meio da mata uma fogueirinha com chamas azul-pálidas esquentava o restinho de frio do mês de agosto.

Em volta dela, eu e meu pai saboreávamos o mel fresco e levemente adocicado que acabáramos de colher, era uma sensação boa estar ali com o velho experimentando aquela aventura.

Naquele momento ele era todo sorrisos, contava histórias do tempo do meu avô e lembrava de causos e cantigas de sua infância.

- Quando é que nós vamos embora, pai?

- Não vamos hoje, menino. Vamos dormir aqui. Que tal? Não é uma bela noite? Veja como o céu está estrelado, escuta a cantiga dos curiangos... olha que beleza...

-Prova mais este favinho de mel, repara como está branquinho!

- Ele me ofereceu o favo e os seus olhos eram só ternura...Naquele momento eu o amei mais do que nunca. Senti uma vontade imensa de lhe abraçar, dar um beijo e dizer que o adorava, mas fiquei com vergonha. Apenas aceitei e disse "obrigado".

O velho foi até a Variant e do porta-malas retirou um cobertorzão de lã e uma lona preta que ele usava pra enrolar bananas verdes.

Estendeu a lona na grama, se enrolou no cobertor e ficou deitado olhando pro céu. A fogueira tinha apagado e eu fiquei ali tremendo de frio e vendo o meu pai absorto, contemplando o firmamento.

Aí ele olhou pra mim e disse:

-Como é? Vem ou não?

Então eu corri e deitei no seu ombro me enrolando bem no cobertor, sentindo o cheiro e o calor do meu pai, enquanto olhávamos as estrelas e sentíamos o vento fresco no rosto, que trazia um cheiro bom de mato.

Lá do fundo, das entranhas escuras da mata, vinha o choro triste do urutau benzendo a lua e o borbulhar eterno das águas mansas do ribeirão verde-escuro.

Então eu abracei forte o peito do meu pai, fechei os olhos e fiquei pensando nos ratinhos pelados, lagartixas das folhagens e generosas abelhas melíferas.

Naquela hora tive a certeza de que a vida era mesmo boa. Boa e doce. Doce como o mel.
*Texto escrito em 2009, revisado em 2022.