CARRANQUEIRO BOM DE PROSA
O seu Chico Chagas é fazedor de carrancas, essas figuras mitológicas esculpidas em madeira e estrategicamente colocadas à frente das embarcações pelos antigos navegantes do Rio São Francisco.

Ligado ao rio até pelo nome, Francisco Chagas é nascido e criado aos pés da Serra da Canastra, bem próximo à nascente do Velho Chico, rio cujas águas brotam cristalinas das rochas ancestrais e avançam Brasil acima, levando lendas, histórias, vidas e embarcações devidamente protegidas pelas inconfundíveis caretas protetoras.

Chicos Chagas, autêntico artesão da Serra da Canastra.
Conhecemos seu Chico no último verão, quando pernoitamos em seu sítio em um espaço que ele cuidadosamente reserva àqueles que pretendem imergir na história e natureza da Canastra. Natural de São Roque de Minas, tornou-se conhecido como artesão quando começou a esculpir as carrancas, no princípio apenas como passatempo - quando esteve proibido de sair de casa depois uma operação de hérnia - mas que depois se tornou um hábito que cultiva até hoje.

As obras de arte agradavam os turistas, que faziam questão de levar uma amostra para casa, "tem carranca, minha por todo esse mundo, na Europa, no Japão, nos Estados Unidos..." conta seu Chico enquanto mostra as peças que ele guarda em casa, inclusive a primeira carranca que fez, quando ainda estava "pegando o jeito".

Neto de carpinteiro, além de artesão, seu Chico é também um músico dedicado e cultiva forte religiosidade, ajudando a manter uma das mais populares tradições de Minas Gerais como capitão de folia-de-reis, cujo hino ele entoa no acordeon com uma devoção comovente.


Mas seu Chico gosta mesmo é de contar um bom causo e nessa arte ele se esmera, capricha nos detalhes, na entonação, e vai desfiando as histórias sem pressa, saboreando cada palavra, conferindo ao enredo uma atmosfera e autenticidade cativantes.

À mesa de sua cozinha sempre há espaço para uma boa conversa e depois de vários cafezinhos, acompanhados do autêntico e saborosíssimo Queijo Canastra, ele explica que a carranca é usada para afugentar as assombrações que vivem na água, o Minhocão, a Mãe-d´água e principalmente o Caboclo-d´água, criatura sobrenatural de aparência assustadora que seu Chico garante já ter visto ao vivo:

"Meu avô sempre ia pescar com meu tio nuns rios que tem aí pra cima. Meu tio sempre falava pra tomar cuidado com o Caboclo-d´água, uma mistura de homem e macaco que vira a canoa para atacar as pessoas. Meu avô não acreditava em nada disso. Mas um dia ele estava pescando, a canoa começou a bambear. De repente ele viu uma mão agarrada na borda, tirou o facão e num golpe, cortou. Era a mão do caboclo d´água! Ela era preta, com unhas grandes e umas coisas assim entre os dedos, que nem pato. Meu avô guardou essa mão até as vésperas de sua morte, quando um amigo pediu emprestada e depois sumiu, não devolveu mais (...) A carranca serve pra isso, espantar o Caboclo-d´água que vê aquela cara mais feia que ele, fica com medo e vai embora".

A figura de seu Chico Chagas bem representa a alma de um povo secularmente estabelecido na Canastra, lugar onde se vive sem pressa, se valoriza a simplicidade e um bom bate-papo. Ouvindo seus causos nos transportamos no tempo, rimos e nos emocionamos com os personagens e histórias só possíveis de existir entre as insondáveis montanhas da Serra da Canastra.

Texto originalmente publicado na Revista Destaque In, n. 84 - novembro de 2009.