PARQUE NACIONAL DA
SERRA DA CANASTRA
50 ANOS PROTEGENDO A BIODIVERSIDADE
E ENCANTANDO PESSOAS
Alessandro Abdala*
Criado para preservar a fauna e flora das nascentes do Rio São Francisco, parque completa 50 anos de história como um dos principais santuários de vida selvagem do país.
Pessoas todo o mundo visitam o Parque Nacional da Serra da Canastra em busca de observação de fauna, contato com a natureza, vivências culturais, cenários amplos e cachoeiras.
O Parque Nacional da Serra da Canastra está completando 50 anos. Criado em 03 de abril de 1972, é um dos mais antigos e tradicionais do Brasil e ao longo de sua existência tem encantado pessoas de todo o mundo, seja pela exuberância natural, diversidade de vida que abriga, cenários deslumbrantes que preserva ou pela hospitalidade e originalidade de seu povo.

Com área de 197.787 hectares, localiza-se no sudoeste do estado de Minas Gerais e abrange os municípios de Capitólio, Delfinópolis, Sacramento, São João Batista do Glória, São Roque de Minas e Vargem Bonita.

O Parque Nacional da Serra da Canastra é o principal reduto do pato-mergulhão (Mergus octosetaceus), uma das aves mais raras e ameaçadas do mundo.
Com mais de 400 espécies de aves e uma considerável área de Cerrado preservado, o Parque Nacional da Serra da Canastra é um dos principais hotspots para observação de pássaros e se constitui em um verdadeiro refúgio de vida selvagem no Brasil.

Além do pato-mergulhão (Mergus octosetaceus), uma das aves mais raras e ameaçadas do mundo, no parque vivem espécies em frágil situação de conservação, como o inhambu-carapé (Taoniscus nanus) e o galito (Alectrurus tricolor); e pelo menos mais uma dezena de aves em risco de extinção, a maioria associada aos campos naturais do Cerrado, hoje extremamente escassos na paisagem da América Latina.
O diminuto galito (Alectrurus tricolor), passarinho ameaçado pela perda de habitat, que encontra nos campos naturais do Parque Nacional da Serra da Canastra as condições de sobrevivência da espécie.
Além de proteger o Cerrado com sua vegetação primitiva, o Parque Nacional também abriga a nascente histórica do Rio São Francisco, que se forma a partir de dezenas de olhos d´água que brotam despretensiosos no alto do chapadão e escorrem serra abaixo, avolumando-se, transpondo obstáculos, para despencar maravilhosamente nas encostas de pétreas montanhas inacessíveis.

Depois de transpor os quase 200 metros de queda da cachoeira Casca D´anta, o Velho Chico segue seu caminho, de sul a nordeste recebendo manadeiros afluentes, ajuntando águas, histórias e saberes culturais.

Marco que indica a nascente histórica do Rio São Francisco, um dos mais importantes do país.
O Cerrado na Serra da Canastra, misterioso e resistente, incompreendido e maltratado, é um mosaico em labirintos. Cada estrada de chão batido, bordada pelas flores do capim brinco-de-princesa, dourada pela luz do sol, leva a verdadeiros jardins da natureza.

No parque existem quase 1,5 mil espécies de plantas catalogadas. A região é considerada uma das áreas prioritárias para preservação da flora de Minas Gerais e lar de plantas endêmicas e ameaçadas.

No entanto, é preciso preparar o espírito e o olhar para contemplar essa diversidade. À primeira vista, o visitante que percorre a paisagem da Canastra, iludido pelo aspecto monótono dos chapadões monocromáticos e carentes de árvores, não se dá pela quantidade e diversidade de vida que se esconde entre o capim nativo ou nos grotões ao longo dos vales. Mas conforme nos acostumamos com o panorama do lugar, colocamos melhor reparo nas rochas, nas plantas, nos passarinhos, e quase que imperceptivelmente o cenário vai se transformando. Campo sujo, campo limpo, capão de mato, cerradinho, cerradão e uma infinidade de plantas e cores passam a encher os olhos do observador mais atento.
Nos limites do Parque Nacional existem quase 1,5 mil espécies de plantas catalogadas. Algumas de exuberante beleza, como a flor do para-tudo (Gomphrena officinalis).
Os campos se vestem de branco, rosa e amarelo no alto das montanhas, enfeitados por lírios-do-campo. Tapetes de sempre-vivas ornam as colinas e ancestrais arnicas e canelas-de-ema salpicam de azul as rochas proeminentes, nos rústicos e primitivos campos rupestres.

No interior dos capões, guardadas pela umidade e penumbra quase etérea da Floresta Atlântica, cercadas por centenários cedros e jatobás, endêmicas orquídeas são como joias preciosas que se revelam apenas durante um curto período a cada ano. Para além das copas, destaca-se a silhueta majestosa das frondosas paineiras, que se colorem de branco e rosa durante o outono.

No alto dos chapadões, a magia do Cerrado permite que do solo pobre, maltratado por agressivas queimadas, brotem retorcidos e teimosos paus-terra (Qualea parviflora), muricis (Byrsonima sp.), pequizeiros (Caryocar brasiliense) e lobeiras (Solanum lycocarpum), estas de importância fundamental na manutenção de animais para as quais fornecem alimento, como o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).
Flores como a sempre-viva (Paepalanthus Speciosus) salpicam os campos de cores e formas diversas.
Amplos horizontes, um mar de campos a perder de vista, pontilhado por verdes ilhas de capões de mata é o habitat de uma rica variedade de mamíferos, grande parte ameaçada de extinção. A Canastra é hoje a reserva com a maior população de lobos-guará (Chrysocyon brachyurus) do mundo, canídeo sui generis que tem sofrido com a perda de habitat e perseguição humana, por isso a existência do Parque Nacional é fundamental para a manutenção desse solitário lobo do Cerrado.
Extensos chapadões como o "do Zagaia'", no município de Sacramento MG, cobertos por campos naturais, compõe o cenário na parte alta do parque.
Outros mamíferos ameaçados, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), também são avistados com facilidade no parque, entretanto, bichos de hábitos noturnos como a onça-parda (Puma concolor) e o tatu-canastra (Priodontes maximus) são bem menos vistos, mas tiveram sua presença registrada em tempos recentes.
Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) em atividade de caça nos campos naturais preservados pelo Parque Nacional.
Na Serra da Canastra esses animais encontram alimento, abrigo e segurança, mas não estão isentos de perigo. A pressão humana é cada vez mais agressiva no entorno da área protegida, especialmente na sua porção noroeste, onde a agricultura intensiva está cada vez mais presente.
Durante a estação mais seca do ano, queimadas criminosas costumam ser frequentes na área do Parque Nacional. Felizmente a Unidade vem adotando novas técnicas de Manejo Integrado do Fogo, com bons resultados.
Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) vasculha, em busca de alimento, uma área de campo recém queimada.
Nos últimos anos, além dos problemas com a agricultura predatória, queimadas criminosas, mineração clandestina e propostas políticas que buscam esfacelar a área de proteção, a fauna da Canastra luta contra a introdução de mamíferos exóticos, como o javali (Sus scrofa) e a lebre-europeia (Lepus europaeus), estes com registros cada vez mais frequentes nos limites da Unidade de Conservação.

Javali (Sus scrofa), espécie exótica registrada com cada vez mais frequência nos limites do Parque Nacional.
No entorno do parque vive um povo acolhedor que preserva uma cultura singular, talvez como resultado de séculos de isolamento entre as vetustas montanhas.

Na Serra da Canastra, tradições como a folia de reis e a congada persistem em existir. Apesar da aculturação característica dos tempos modernos, são respeitosamente perpétuadas de geração em geração.
Apresentação de folia de reis em frente a bicentenária Igreja de Nossa Senhora do Desterro em Desemboque MG: fé e tradição perpetuadas por gerações.
No fundo dos vales, cercadas pela monumental caixa de pedra, fazendinhas tradicionais guardam antigos segredos culinários. Ali, sabores de outras eras temperam as mesas de madeira rústica das cozinhas, aquecidas pelo calor dos fogões a lenha, onde as pessoas se sentam para falar das pequenas alegrias cotidianas enquanto saboreiam o melhor queijo do mundo.
O premiado Queijo Canastra, internacionalmente reconhecido como iguaria gastronômica da região.
Assim é a Serra da Canastra, santuário de bichos e plantas em extinção, repositório de costumes ancestrais.

Graças ao Parque Nacional esse patrimônio se mantém preservado e pode ser desfrutado pela presente e futuras gerações.

50 anos é só o começo dessa história.

Que o Parque Nacional da Serra da Canastra siga encantando pessoas e perpetue a sua missão de resguardar criaturas maravilhosas, em comunhão com o ambiente preservado e protegido.

A majestosa cachoeira Casca D´anta, um dos principais pontos de visitação do parque, encanta pessoas de todo o mundo por sua beleza e exuberância natural.
Hora de festejar
Para celebrar o aniversário de 50 Anos, a direção do parque preparou diversificada programação, que inclui apresentações musicais, palestras, observação de fauna e exposição de produtos regionais.
Logo comemorativa dos 50 anos do Parna Canastra, criação do designer Alessandro Abdala.
CONFIRA A PROGRAMAÇÃO:


Sábado (02 de abril) - Centro de Visitantes do Parna Canastra

9h às 10h
Abertura pelo Chefe do Parna Canastra, Carlos Henrique Bernardes com o tema "Panorâmico histórico e atual da unidade de conservação".

10h à 11h30
Lançamento do documentário: "O Tamanduá e a Serra" - Prof. Sávio F. Bruno;

11h30 às 13h
Apresentação do projeto "Will na Canastra" - Willian Bruno;

13h às 13h50
Palestra: "Tesouros da Canastra: A rica vida selvagem no Parque Nacional" - Prof. Alessandro Abdala;

13h50 às 14h30
Palestra: "Observação de fauna: prática e segurança", - Fred Crema.


Domingo (03 de abril) - Portaria 04 (Parte Baixa da Casca D´anta)

6h às 9h
Saída de campo: vem passarinhar - Alessandro Abdala e Fred Crema;

9h às 10h
Bate-papo sobre dicas de observação e fotografia de fauna;

10h às 11h
Celebração com bolo (lanchonete);

Feira com produtos regionais e apresentações musicais (Gramado das antigas churrasqueiras).

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*Alessandro Abdala é autor dos livros "Serra da Canastra" e "Joias Aladas" que tratam da rica biodiversidade do Parque Nacional.