CRÔNICA
VICENTE HERMÓGENES
Autenticidade e sabedoria
Alessandro Abdala e Carlos Alberto Cerchi*
Professor Vicente Hermógenes em foto de Alessandro Abdala.
Vicente de Araújo Lima, ou Vicente Hermógenes, como é popularmente conhecido, tornou-se uma figura folclórica e um verdadeiro símbolo desemboquense.

Seu Vicente encarna a resistência ao avassalador processo de desmonte da cultura popular. Essa resistência se manifesta na arte de narrar causos, no uso das expressões regionais, na preservação de lendas, cantigas, trovas e brincadeiras tradicionais. Tudo isso temperado com bom humor, camaradagem e uma notável criatividade.

Para nós, produtos de uma geração absorvida pela pressa contemporânea, foi preciso reaprender a escutar. Ouvir com atenção os causos, para captar a sutileza dos enredos que fazem sorrir, que emocionam, que ampliam o sentido do ridículo no riso espontâneo ou contêm a tragédia nos acontecimentos mais triviais, revelados pela narrativa pausada, parcimoniosa e, ao mesmo tempo, profundamente verdadeira de Seu Vicente.

Foto de Alessandro Abdala em 2001.
Tentamos registrar suas histórias por escrito, e fracassamos. O resultado foi insosso, monótono, incapaz de refletir seu modo único de entrelaçar sonhos, fantasias e verdades. Nossos textos não passam de pálidos arremedos da cultura oral que lhe foi legada pelos antigos moradores do Desemboque, aqueles que se sentavam nos bancos de madeira para conversar, no tempo em que se tinha tempo.

Para os mais apressados, suas histórias podem parecer banais. Mas exigem escuta ativa: é preciso usar bem os ouvidos, conter a fala, e permitir-se descobrir a magia dos contadores de histórias, uma espécie cultural em vias de extinção.
Foto de Alessandro Abdala. 2006.
A civilização do Triângulo Mineiro esqueceu o Desemboque: sua história, sua gente, sua essência. Enquanto isso, a lógica do marketing ocupa os meios de comunicação e promove um silencioso processo de aculturamento, substituindo valores e diluindo identidades.

As histórias de Vicente Hermógenes, ao contrário, revelam sabedoria e despertam uma cultura que ainda resiste, embora agonizante, nos poucos herdeiros da tradição oral. A seguir, transcrevemos duas de suas narrativas, exemplos do seu repertório inusitado e do imaginário fantástico que o consagra como uma figura quase mítica:



Foto de Alessandro Abdala em 2006.

História nº 1
“Sou descendente do Cônego Hermógenes.”
— Padre não casa, como pode ser?
O tom muda. Ganha reverência. Seu Vicente responde com solenidade, como quem protege a honra de um antepassado ilustre:
— O Cônego era “possuidor” de duas mulheres: uma paulista, morena, e outra mineira, clara, aqui do Desemboque. Eu sou descendente da clara!"

História nº 2
Também sobre o Cônego Hermógenes:
“O Cônego não quis ser enterrado dentro da igreja, como era "direito" dos padres e benfeitores da paróquia. Reconhecendo-se pecador, fez questão de ser sepultado na entrada da porta principal da Igreja de Nossa Senhora do Desterro, no Desemboque.
— Ele queria que as pessoas pisassem em seu túmulo ao entrar na igreja como penitência por ter sido ‘possuidor de duas mulheres’. Foi sua vontade testamentária.”

Foto de Alessandro Abdala. 2006.
Um pouco de Genealogia

O Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik foi vigário do Desemboque por quase meio século. Era Provisor de Capelas, dentre as quais originaram as cidades de Sacramento e Uberaba, surgidas no início do século XIX quando o antigo Sertão da Farinha Podre era ainda um vazio demográfico pela então recente perseguição aos índios caiapós que sucumbiram à implacável intrepidez de Antonio Pires de Campos, e Bartolomeu Bueno do Prado, perseguidores de bugres e quilombolas.

Cônego Hermógenes chegou ao Desemboque com seus pais, Capitão Manoel Ferreira de Araújo e Souza e Joaquina Rosa de Sant'ana e irmãos vindos de Conceição do Mato Dentro no período de grande migração no interior do estado de Minas Gerais, por volta de 1805.

Ordenado Padre na cidade de São Paulo em 1810. De 1814 até a data de sua morte em 26 de setembro de 1861, foi vigário do Desemboque, tornando-se o vulto mais importante do Sertão da Farinha Podre, atual Triângulo Mineiro, área correspondente ao antigo Julgado Goiano (até 1816) de Desemboque.

Cônego Hermógenes ocupou praticamente todos os cargos de relevância na condição de Brasil Colônia (até 1822) e Império, como membro do Partido Conservador, Comendador da Capela Imperial, Vigário e Deputado Provincial.

Não é por acaso que o nome Hermógenes tornou-se sobrenome e popularizou-se na descendência Desemboquense tornando-se sinônimo de importância e orgulho familiar.

Em seus escritos sobre genealogia mineira, Hildebrando Pontes diz textualmente: “Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonwik deixou dez filhos naturais, havidos, o primeiro, quando ainda estudante em São Paulo, com uma jovem natural desta então Província, e cujo nome ignoro; os oito imediatos havidos com Ludovina Clara dos Santos, natural de Paracatu (MG), falecida no arraial do Santíssimo Sacramento aos 10 de dezembro de 1830, o último havido com Tereza Luiza das Neves...”
Professor Vicente Hermógenes, guardião da tradição oral do Desemboque. Foto de Alessandro Abdala em 2001.
Na sequencia, a descrição resumida de sua prole:

1- Inês Florinda da Silva e Oliveira, natural de São Paulo, nascida anteriormente a 1810 casada em primeiras núpcias com o Cap. José Manoel da Silva e Oliveira (Cap. Guarita), com geração descrita no original. Em segunda núpcias com Joaquim de Freitas Silveira (com geração).

2- Maria Justina Cassimira de Araújo Lima (Miquita), nascida em Desemboque onde faleceu, casada com o Paulista Francisco Lima, teve:
2.1- Major Cristino Adolfo de Araújo Lima.
2.2- Cap. Hermógenes Herculano de Araújo Lima, casado com Maria José da Silveira.
2.3- Francisco, falecido em pequeno.
2.4- Ricarda de Araújo Melo, casada (teve geração).
2.5- Capitão Galdino Justiniano de Araújo Lima, casado (teve geração).

3- Com. Antonio Eloy Cassimiro de Araújo - Barão da Ponte Alta - casado duas vezes, teve geração em ambos os casamentos.

4- Maria Delfina Cassimira de Araújo Santos, casada (sem geração)

5- Maria Cância Cassimira de Araújo, casada em primeiras núpcias com José Vieira Pontes e em segundas núpcias com Francisco de Oliveira França (não teve geração).

6- Carlos Cassimiro de Araújo, falecido solteiro.

7- José Maria Cassimiro de Araújo (Deca) casado com Maria Madalena Araújo (teve geração).

8- Maria Cassimira de Araújo Sampaio, casada com Antonio Borges Sampaio (teve geração).

9- Maria Filisbina de Araújo, casada com Manoel José da Silveira Araújo (teve geração).

10- Major Carlos Maria Cassimiro de araújo (Nhonhô) casado com Ana Rosa de Oliveira França (teve geração).

11- Major Aureliano Cesário de Araújo (Lério) casado com Ludovina Clara de Araújo (teve geração).

Vicente Hermógenes em foto do professor Carlos Alberto Cerchi.
Genealogia de Vicente Hermógenes:

Do casamento de Hermógenes Herculano de Araújo Lima (2.2), com Maria José da Silveira nasceram os seguintes filhos:

1- Joana Nepumoceno de Araújo Lima, casada;

2- Capitão Francisco Antonio de Araújo Lima (Chiquinho Hermógenes) casado com Mariana Lucinda de Lima (teve geração);

3- José Antonio de Araújo Lima, casado com Celestina de Melo (geração a seguir);

4- Rita de Cássia de Araújo Lima, casada com Rufino Ribeiro de Faria.

5- Avelino de Araújo Lima, falecido solteiro.

Do casamento ocorrido em 24 de abril de 1897, entre José Antonio de Araújo Lima e Rosalina Celestina de Melo, nasceram 14 filhos, dentre eles Vicente de Araújo Lima, ou Vicente Hermógenes. São eles: Zulmira, Adelina, Militino, Nicésio, Militina, Demétrio, Euclides, Sosígenes, Alber, Vicente, José, Anair, Alexandre, Sebastiana.

Comprovação da primeira história: Hermógenes, que gerou Maria, que gerou Hermógenes Herculano, que gerou José, que gerou Vicente.

A confirmação da segunda estória está no testamento do Cônego Hermógenes, que expressa sua vontade da seguinte forma: “Falecendo eu da vida presente nesta freguesia, meu corpo será sepultado no adro, junto a porta principal da Matrix, envolto no hábito de São Pedro, paramentado com as vestes sacerdotais na forma do costume”.

Dois grandes amigos: Professores Vicente e Berto, no lugar preferido deles, o Desemboque.
Foto de Alessandro Abdala. 2015.
Vicente Hermógenes, pela sua vivência, simplicidade e autenticidade, permanece como referência de cultura e história do Desemboque. Representa uma das últimas cidadelas das tradições genuínas, um patrimônio vivo, um elo entre passado e presente, manancial de cultura que insiste em resistir ao esquecimento.
*O professor Vicente faleceu no dia 08 de maio de 2017, aos 98 anos, e foi sepultado no Desemboque, conforme sua vontade.

*Texto publicado na Revista Destaque In, n. 72. Novembro de 2006. Revisado em 2026.