Ao regar a planta do vaso no hall de entrada da casa, reparou num ovo. Branco, tamanho médio, depositado sobre os pedriscos, rente ao caule da palmeira-leque.
Segurou-o na mão e sentiu que ainda estava quente; decerto acabara de ser posto. Examinou-o com uma curiosidade desconfiada e achou melhor devolvê-lo ao lugar, para ver o que acontecia.
Na tarde seguinte, ao voltar do trabalho, eram dois ovos.
Aquela foi uma semana atribulada, e nos dias que se sucederam acabou chegando tarde do trabalho, já de noite. Ao acender a luz para entrar em casa corria para conferir o ninho e esboçava um sorriso bobo ao constatar a presença de mais um ovo. Ao cabo de uma semana eram sete, todos brancos, dispostos de uma forma meio displicente.
“Mas que coisa...”
Na manhã de domingo acordou bem cedo e vasculhou os arredores, como se esperasse encontrar a responsável. Não viu nada.
Só mais tarde, quando se preparava para sair para fotografar, como fazia todos os domingos, deu com ela. Parada sob a fresta do portão que dava para a rua, olhando. Uma galinha comum, pequena, de uma cor meio encardida, sem nada de especial, a não ser o fato de estar olhando para ele.
"Então é você?"
A galinha não respondeu. Apenas inclinou levemente a cabeça, como fazem. E ficaram os dois se olhando, ele pensando se haveria naquela cabecinha algo como o pensamento.
No mato, enquanto esperava a luz certa para fotografar beija-flores, pensou nela mais de uma vez. Não era nada - uma galinha, um vaso, ovos. Mesmo assim, em dois ou três momentos, pegou-se distraído, lembrando da cena, da posição dos ovos, do jeito como ela o olhara.
À noite, ao chegar, ela estava lá outra vez. Desta vez dentro do vaso.
Parou na porta sem acender a luz. Ficou olhando. A galinha ajeitava o corpo devagar, empurrando os ovos com movimentos curtos, quase cuidadosos. Depois sossegou.
Ele entrou sem fazer barulho.
Agora a galinha permanecia o tempo todo no ninho, imóvel por longos períodos, os olhos semicerrados.
"Tudo bem por aí?" dizia ele, às vezes.
A galinha respondia com um meneio de cabeça e um curto cacarejar, enquanto nos lábios do homem aflorava um leve sorriso.
A rotina dos dias seguintes transcorreu como de costume: trabalho, projetos, reuniões, suspiros... mas sempre um certa impaciência, uma indisfarçada pressa ansiosa para voltar para casa. E ao chegar, antes de qualquer coisa, ia ao ninho.
Numa noite de vento mais forte, encontrou-a eriçada, as penas levantadas, o corpo mais baixo sobre os ovos. Parou um pouco mais distante, sem se aproximar.
"Tá certo", disse.
A chuva começou no fim da tarde e entrou pela noite. Primeiro fina, depois mais pesada, batendo no telhado, a água transbordando pelas calhas desprevenidas.
Os clarões dos raios iluminavam o quarto onde o homem deitado na cama, lia um romance.
Levantou e foi conferir a galinha. Estava lá, firme, mas encharcada. A água escorria pelas folhas da palmeira e se acumulava no fundo do vaso.
"Calma, calma..." Aproximou-se devagar. A galinha se agitou, abriu um pouco as asas.
"Sou eu", fica calma.
Enfiou as mãos, uma de cada lado, e ergueu-a com cuidado. Ela debateu-se um pouco, mas não chegou a fugir. Debaixo dela, os ovos - alguns já rachados.
Levou tudo para dentro.
Na cozinha, improvisou um canto com um pano velho, uma caixa, o que encontrou. A galinha, ainda inquieta, foi se ajeitando aos poucos. Ele ficou ali, de cócoras, sem saber direito o que fazer.
A chuva seguiu pela noite.
Em algum momento, ouviu um piado, depois outro. Pequenos, quase nada. Aproximou-se mais. Havia um movimento entre os ovos.
"Olha só..." Não tocou. Ficou só olhando.
Dormiu pouco. De manhã, sete pintinhos rodeando a galinha que os acariciava com o bico.
À tarde, na volta do trabalho, comprou quirela de milho e uma vasilha para colocar água.
Ajeitou tudo no canto da cozinha e ficou vendo com satisfação a galinha ciscando a quirela, e incentivando os pintinhos a comer.
Nos dias seguintes, a galinha passou a sair com eles. Atravessava o portão por baixo, um a um atrás dela, numa fila desordenada. Voltavam sempre ao fim da tarde. Recolhiam-se ao canto da cozinha, como se aquela casa também fosse deles.
Na volta do trabalho, enquanto andava, o homem vinha pensando no que acontecera. No começo fora só curiosidade, mas depois foi bacana, ficava alegre quando lembrava da galinha e os pintinhos. Mas o que faria com eles agora? Uma amiga do trabalho chegou a sugerir que fizesse um ensopado, o que ele considerou um sacrilégio. Matá-la não ia. Poderia criá-la, construiria um galinheiro na parte detrás da casa, tinha muito espaço lá, usaria madeira de demolição, cobriria com telhas de barro, cercaria com tela, ficaria uma beleza! É, é isso que faria. No domingo de manhã levantaria bem cedo e iria mexer com isso.
Chegando em casa, parado em frente ao portão, estava o vizinho, segurando a galinha com os pintinhos em uma caixa de papelão.
"Que bom que chegou, estava te esperando." - Ao vê-lo, a galinha soltou um carcarejo e os pintinhos responderam, piando em coro.
"Há dias que procurava essa fujona, até que a minha filha a viu saindo por baixo do portão, com os pintinhos. Agora vamos deixar trancada no quintal dos fundos, e garanto que não lhe incomodará mais".
"Mas ela não incomoda", foi tudo que conseguiu dizer, enquanto parado em frente ao portão, via o vizinho se afastando, levando a caixa de papelão embaixo do braço. Mesmo depois que ele virou a esquina, ainda se podia ouvir o piado abafado dos pintinhos, vindo de dentro da caixa.
Sentiu falta dela? Imagine; um homem sentir falta de uma galinha e alguns pintinhos... Claro que ele não sentiu.
Mas sentiu, tinha de admitir, que aquela casa ficara um pouco mais vazia e aqueles dias, um pouco mais tristes.