CONTO
UMA GALINHA
Alessandro Abdala*
Ao regar a planta do vaso no hall de entrada da casa, reparou num ovo. Branco, tamanho médio, depositado sobre os pedriscos, rente ao caule da palmeira-leque.

Segurou-o na mão e sentiu que ainda estava quente; decerto acabara de ser posto. Examinou-o com uma curiosidade desconfiada e achou melhor devolvê-lo ao lugar, para ver o que acontecia.

Na tarde seguinte, ao voltar do trabalho, eram dois ovos.

Aquela foi uma semana atribulada, e nos dias que se sucederam acabou chegando tarde do trabalho, já de noite. Ao acender a luz para entrar em casa corria para conferir o ninho e esboçava um sorriso bobo ao constatar a presença de mais um ovo. Ao cabo de uma semana eram sete, todos brancos, dispostos de uma forma meio displicente.

“Mas que coisa...”

Na manhã de domingo acordou bem cedo e vasculhou os arredores, como se esperasse encontrar a responsável. Não viu nada.

Só mais tarde, quando se preparava para sair para fotografar, como fazia todos os domingos, deu com ela. Parada sob a fresta do portão que dava para a rua, olhando. Uma galinha comum, pequena, de uma cor meio encardida, sem nada de especial, a não ser o fato de estar olhando para ele.

"Então é você?"

A galinha não respondeu. Apenas inclinou levemente a cabeça, como fazem. E ficaram os dois se olhando, ele pensando se haveria naquela cabecinha algo como o pensamento.

No mato, enquanto esperava a luz certa para fotografar beija-flores, pensou nela mais de uma vez. Não era nada - uma galinha, um vaso, ovos. Mesmo assim, em dois ou três momentos, pegou-se distraído, lembrando da cena, da posição dos ovos, do jeito como ela o olhara.

À noite, ao chegar, ela estava lá outra vez. Desta vez dentro do vaso.

Parou na porta sem acender a luz. Ficou olhando. A galinha ajeitava o corpo devagar, empurrando os ovos com movimentos curtos, quase cuidadosos. Depois sossegou.

Ele entrou sem fazer barulho.

Agora a galinha permanecia o tempo todo no ninho, imóvel por longos períodos, os olhos semicerrados.

"Tudo bem por aí?" dizia ele, às vezes.

A galinha respondia com um meneio de cabeça e um curto cacarejar, enquanto nos lábios do homem aflorava um leve sorriso.

A rotina dos dias seguintes transcorreu como de costume: trabalho, projetos, reuniões, suspiros... mas sempre um certa impaciência, uma indisfarçada pressa ansiosa para voltar para casa. E ao chegar, antes de qualquer coisa, ia ao vaso.

Numa noite de vento mais forte, encontrou-a eriçada, as penas levantadas, o corpo mais baixo sobre os ovos. Parou um pouco mais distante, sem se aproximar.

"Tá certo", disse.

A chuva começou no fim da tarde e entrou pela noite. Primeiro fina, depois mais pesada, batendo no telhado, a água transbordando pelas calhas desprevenidas.

Os clarões dos raios iluminavam o quarto onde o homem deitado na cama, lia um romance.

Levantou e foi conferir a galinha. Estava lá, firme, mas encharcada. A água escorria pelas folhas da palmeira e se acumulava no fundo do vaso.

"Calma, calma..." Aproximou-se devagar. A galinha se agitou, abriu um pouco as asas.

"Sou eu", fica calma.

Enfiou as mãos, uma de cada lado, e ergueu-a com cuidado. Ela debateu-se um pouco, mas não chegou a fugir. Debaixo dela, os ovos - alguns já rachados.

Levou tudo para dentro.

Na cozinha, improvisou um canto com um pano velho, uma caixa, o que encontrou. A galinha, ainda inquieta, foi se ajeitando aos poucos. Ele ficou ali, de cócoras, sem saber direito o que fazer.

A chuva seguiu pela noite.

Em algum momento, ouviu um piado, depois outro. Pequenos, quase nada. Aproximou-se mais. Havia um movimento entre os ovos.

"Olha só..." Não tocou. Ficou só olhando.

Dormiu pouco. De manhã, sete pintinhos rodeando a galinha que os acariciava com o bico.

À tarde, na volta do trabalho, comprou quirela de milho e uma vasilha para colocar água.

Ajeitou tudo no canto da cozinha e ficou vendo com satisfação a galinha ciscando a quirela, e incentivando os pintinhos a comer.

Nos dias seguintes, passou a sair com eles. Atravessava o portão por baixo, um a um atrás dela, numa fila desordenada. Voltavam sempre ao fim da tarde. Recolhiam-se ao canto da cozinha, como se aquela casa também fosse deles.

Na volta do trabalho, enquanto andava, vinha pensando no que acontecera. No começo fora só curiosidade, mas depois foi bacana, ficava alegre quando lembrava da galinha e os pintinhos. Mas o que faria com eles agora? Uma amiga do trabalho chegou a sugerir que fizesse um ensopado, o que ele considerou um sacrilégio. Matá-la não ia. Poderia criá-la, construiria um galinheiro na parte detrás da casa, tinha muito espaço lá, usaria madeira de demolição, cobriria com telhas de barro, cercaria com tela, ficaria uma beleza! É, é isso que faria. No domingo de manhã levantaria bem cedo e iria mexer com isso.

Chegando em casa, em parado em frente ao portão, estava o vizinho, segurando a galinha com os pintinhos em uma caixa de papelão.

(desenvolver essa parte: o vizinho conta que há dias procurava a galinha, e o agradece por ter cuidado dela, e vai embora levando a galinha. Ele diz "de nada", pensativo)

Sentiu falta dela? Imagine; Um homem sentir falta de uma galinha e alguns pintinhos... Claro que ele não sentiu. Mas sentiu - tinha de admitir - que a casa ficara um pouco mais vazia e os dias, um pouco mais tristes.