Desemboque MG

Visitar o Desemboque é dialogar com sua história - ela está viva em cada uma das pedras limosas empilhadas nos muros antigos ou espalhadas pelo terreno árido entre os chapadões do Bugre e do Zagaia. Podemos senti-la nas grupiaras adormecidas ao longo do leito do rio de águas diáfanas, nas ferragens carcomidas que emolduram as lápides de pedra do velho cemitério, na altivez inabalável das igrejas tricentenárias e nos olhares transcendentais de seus minguados moradores que trazem no semblante e no sangue a insígnia dos tempos passados. Há uma atmosfera nostálgica que parece nos dizer: - Eis aqui a história de um povo, escrita com sangue e lágrimas, medida a peso de ouro, às custas de suor, crimes, aventuras e sonhos.

Palco de lutas sangrentas entre os bravos índios caiapós, os negros quilombolas e os garimpeiros brancos faiscadores de riquezas, Desemboque surgiu das ruínas do extinto Tabuleiro, povoado fundado nas eras de 1700 nas encostas da Serra da Canastra pelo guarda-mor Feliciano Cardoso de Camargo. Numa época em que abundavam os quilombos, encontrava-se naquelas imediações, perto de Araxá, às margens do rio Quebra-Anzol o Tengo-Tengo, o segundo maior quilombo do país, aglomerando milhares de escravos fugidios e sedentos por liberdade, liderado pelo negro Ambrósio o Tengo-Tengo resistiu por muitos anos, até que vieram os sinistros "matadores-de-negros" comandados pelo sanguinário Bartolomeu Bueno do Prado, possuidor do troféu monstruoso formado por uma fieira de quase 4.000 orelhas humanas.

Atacado pelos índios Caiapós que habitavam as margens do Rio Grande, atirando flechas e ateando fogo por todos os lados o povoado do Tabuleiro foi dizimado, sobrando vivos apenas alguns poucos habitantes, que desceram cerca de três léguas rio abaixo para fundar o Arraial de Nossa Senhora do Desterro das Cabeceiras do Rio das Abelhas, que logo se tornaria vila, sede de julgado, centro político de grande importância para a colonização de toda a mesopotâmia compreendida entres os rios Grande e Araguari onde hoje se situa o Triângulo Mineiro.

Impulsionado pelo fascínio do ouro, dos aventureiros que chegavam, dos garimpos promissores, Desemboque cresceu rápido, rapidamente suas ruas se enchiam de casas, o comércio firmava-se, um torvelinho de gente de toda espécie arribava vertiginosamente no arraial, atraídos pela faina da riqueza fácil e pelo fascínio de conquistar uma terra completamente selvagem e ainda inexplorada. Alvo de guerras políticas, pertenceu sucessivamente a Minas, São Paulo, Goiás, para somente em 1816 voltar a ser anexado definitivamente ao território mineiro.

Criado oficialmente em 02 de março de 1766. O Julgado do Desemboque (local onde havia um juiz e a burocracia administrativa) compreendia todo o Sertão da Farinha Podre, que hoje corresponde ao Triângulo Mineiro e sul de Goiás. Uma vasta região administrada e comandada pela sede no Desemboque, onde era grande o movimento. Segundo fontes documentais, em 1783 contava cerca de seiscentos habitantes; em 1842 seriam 1.300 espalhados por quase cem casas em um arraial que possuía comerciantes, artesãos, boticários, jornaleiros, ferreiros, carpinteiros, tabeliões, oficiais, enfim toda uma sociedade ampla e estruturada vivendo primeiro em função do ouro, mais tarde por conta própria traçando seu próprio destino.

Conforme o historiador Antonio Borges Sampaio, de 1743 a 1781 saíram das minas do Desemboque mais de 100 arroubas de ouro. Impossível saber quanto mais seria proveniente do roubo e contrabando. Porém a partir de 1871 o ouro começou a escassear, tornando-se cada vez mais esquivo e fugitivo, conseqüentemente Desemboque perdia seu atrativo, obrigando sua população a procurar novas riquezas, lançando suas sementes nas terras férteis d’oeste. O povo desertava, organizavam-se bandeiras que partiam do Desemboque rumo aos ermos desconhecidos do Sertão da Farinha Podre. Buscando ouro eles encontravam rios, campos, terras fertilíssimas banhadas por águas puras e cristalinas, matas virgens de madeiras exuberantes, lagos piscosos como nunca antes puderam ver... muitos ficavam por estes caminhos, fundando pequenos povoados que viriam a originar cidades como Sacramento e Uberaba. Por todos os sertões acima e abaixo do Rio Grande, espalharam-se os aventureiros, tendo como ponto de referência e apoio o arraial do Desemboque. Povoaram aqueles ermos e mais do que isso, gravaram no caráter dos moradores os fortes traços do costume, das tradições e da cultura mineira.

E assim foi se despovoando o Desemboque, os garimpos, exaustos, não alimentavam mais a ambição dos aventureiros, estes, na alucinação das catas, na demência das procuras, na esperança do enriquecimento fácil, não se agarravam a terra, lá se iam para outros sertões, para outras bandas, desbravar outros lugares.... E o Desemboque foi morrendo, agonizando pouco a pouco, quase que imperceptivelmente, de modo que num dia cinzento de um outono qualquer alguém percebeu que não havia mais nada, não mais o brilho áureo do cobiçado metal, não mais a turba aventureira dos primeiros tempos, nem a efervescência irrequieta dos forasteiros, não mais o cartório, nem a cadeia, nem a farmácia, nem os sacerdotes, nem as meretrizes, nem mesmo a rua da Várzea, ladeada pelos casarões centenários, outrora tão movimentada, existia mais. Facilmente o Desemboque passaria por um sonho, uma estória antiga, mal contada, dessas que ninguém acredita, não fosse a presença concreta das duas igrejas com sua brancura amarelecida pelo inexorável passar dos anos, remanescentes inabaláveis, solitárias no alto da colina a comprovar o passado fantástico.

Hoje Desemboque é apenas um espectro daquilo que fora no passado... reduziu-se a duas igrejas, pouco mais de dez casas, algumas sem nenhum habitante, espalhadas ao longo de uma colina. Vez ou outra aparece algum visitante, com a curiosidade própria dos que reviram a história, resignado a desvendar as pistas do passado fantástico que lhe é proposto, olha admirado a quietude infinita, respira embevecido o ar impregnado de causos passados, pega a pensar n’algum pensamento antigo e percorre os caminhos como quem estivesse regredindo ao princípio dos tempos... Depois, comunga solenemente com seu passado épico e vai-se embora com o desconforto da alma "mal-entendendo" e com a sensação de ter despertado em meio ao crepúsculo, povoado por fragmentos de um sonho inacabado.

Veja o álbum de fotos de Desemboque