Blog de Alessandro Abdala

O Espírito do Cerrado

Camuflada entre a ramagem, a silhueta do lobo-guará reforçada pela belíssima luz da canastra faz jus ao epiteto: "O Espírito do Cerrado".

Texto e fotos: Alessandro Abdala

Tirei o título desse post de uma sugestão do amigo do Facebook, Geraldo Junior França, "O Espírito do Cerrado" personifica perfeitamente a índole fleumática e misteriosa desse enigmático canídeo sorrateiro, habitante solitário dos imensos campos nativos da Serra da Canastra.

Nédio Cerchi e Alessandro Abdala fotografando o lobo-guará sob os últimos raios de sol do dia. Foto: Camila Machado.

Há tempos eu buscava um bom registro do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). Embora por vezes já o tenha encontrado, nunca as condições foram propícias para realizar um registro à altura da beleza dessa espécie ameaçada de extinção. Ora estava longe demais, ora arisco demais, por vezes a luz era muito escassa... ou demasido dura, o fundo muito "sujo" ou até mesmo o ambiente por demais "humanizado" como no Santuário do Caraça na Serra do Espinhaço, onde presenciei um belíssimo exemplar do guará que cotidianamente vem assistir a missa do adro da igreja.

A luz filtrada criou uma atmosfera etérea, que retrata perfeitamente a personalidade misteriosa do maior canídeo da América do Sul.

Dessa vez porém foi diferente. Finzinho do dia de São João, o sol já se pondo, últimos minutos da "hora mágica" tão desejada pelos fotógrafos de natureza. Depois de um longo dia guiando amigos pela Serra da Canastra e proporcionando avistamentos incríveis de espécies ameaçadas como a águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus), águia-cinzenta (Urubitinga coronata) e o raríssimo pato-mergulhão (Mergus octosetaceus), quando voltávamos para casa em silêncio, ouvindo a batida intermitente do antigo motor Mercedes que equipa uma valente Toyota Bandeirante, eis que o amigo Nédio Cerchi, do nada, grita: - Lobo!

E o avistamos a alguns metros do carro... Tranquilo, com sua esguia silhueta elegante, caçando sob o pôr do sol; olhou-nos por alguns segundos com certa curiosidade, e voltou à sua atividade de caça! Não fugiu como de costume, não desapareceu como um fantasma; continuou ali, sereno, atento aos movimentos do capim-estrela, na certa farejando alguma codorniz. Aproximamo-nos devagar e pudemos observá-lo durante um bom tempo, enquanto documentávamos a cena iluminada por uma luz sobrenatural, somente possível de existir nos altos chapadões da Canastra. A luz difusa criou uma atmosfera etérea que traduziu-se nas fotos, criando um efeito exatamente como eu imaginava ideal para representar a personalidade mística do lobo-guará.

Durante o avistamento, ainda pudemos observar um comportamento curioso, já descrito por outros autores: a associação de caça entre o lobo-guará e o falcão-de-coleira (Falco femoralis), conforme o lobo caminhava pelos campos limpos do Cerrado, o falcão o acompanhava, pousando sobre grandes pedras nas proximidades, esperando presas como codornas e insetos serem espantadas pelas atividades de caça do lobo, para que então as capturasse em voos rasantes. Pude documentar essa cena, embora com um registro bastante sofrível, devido à emoção e à quase ausência de luz no momento.

Lobo-guará observa o falcão-de-coleira (Falco femoralis). Curiosa associação para caça entre essas duas espécies..

O lobo-guará é descrito na literatura científica desde muito cedo, em 1872, o botânico francês Emmanuel Liais realizou uma expedição científica ao Brasil em que descreveu suas impressões: "O uivo do Guará é ouvido a uma grande distância; nas belas noites de lua cheia, quando os animais perambulam pelas pradarias, não é incomum ouvir os três tons fortes de seu uivo. É raro ver esses animais, que evitam o homem cuidadosamente e se escondem nos arbustos; o menor cão os põe em fuga, com apenas um latido... O Guará caça pequenos mamíferos e perdizes na pradaria, mas prefere insetos grandes, e às vezes até cobras. Alimenta-se especialmente de casca de árvores e frutas e, particularmente, com o fruto da fruta-do-lobo. Esta árvore é muito abundante nos vastos campos abertos, e muitas vezes atinge o tamanho de uma grande árvore de maçã. "Ele é conhecido no Brasil como lobeira e forma parte muito importante da dieta do lobo-guará, que dispersa suas sementes".

O lobo-guará caça entre a densa vegetação de capim nativo pequenos roedores, codornas e insetos.

Atualmente o lobo-guará tem travado uma verdadeira luta pela sobrevivência devido à destruição do Cerrado brasileiro, um dos ambientes de maior biodiversidade do planeta. As populações de lobos-guará têm sofrido declínio significativo, com a perda de habitat sendo a principal ameaça a esta excêntrica espécie de canídeo. Projeções para o ano de 2040 indicam que a situação do Cerrado será ainda mais preocupante, indicando que mais 753.776 km² serão perdidos e o bioma terá 78% da sua área original destruída. O lobo-guará, sendo uma espécie restrita a esse bioma, tem cada vez mais perdido seu habitat para as extensas plantações.

A caça também já levou populações ao declínio pelo fato de crenças populares sobre partes do corpo desse animal. Com a expansão da agricultura, o aumento de conflitos devido a predações ocasionais do lobo-guará sobre animais domésticos tem causado grandes pressões sobre as populações remanescentes. Atropelamentos também são importantes causas de mortalidade em algumas populações. Somados, esses fatos colocam o lobo-guará na lista de animais mundialmente ameaçados de extinção.

O lobo-guará é vítima da má fama associada às histórias de lobo mau. Temido pela população, ele é implacavelmente perseguido e caçado, embora seja um animal solitário, tímido e dócil. A rigor, nem lobo ele é. Evoluiu separado dos demais canídeos e não é parente próximo de lobos ou raposas, com quem também costuma ser comparado. Inicialmente foi classificado como pertencente ao gênero Canis (o mesmo dos lobos e cães domésticos) devido à sua aparência erroneamente interpretada como semelhante a de um lobo, embora também faça parte da mesma família, a dos canídeos. Posteriormente, com uma melhor compreensão da sua biologia, foi remanejado para um novo gênero monoespecífico (composto por uma única espécie), Chrysocyon.

Admirado, amado e odiado, o guará é um sobrevivente solitário, e segue firme na sua luta contra a extinção, esperamos que sua obstinação em sobreviver não seja em vão, que o seu espírito ainda permaneça onipresente nos campos naturais da Serra da Canastra e, num futuro próximo, volte a assombrar os campos e cerrados de todo Brasil.

Durante essa viagem, tivemos o privilégio de observar, por duas ocasiões, a águia-chilena planando baixo, quase ao nível do olho.

Também ameaçada de extinção, a águia-cinzenta, segunda maior águia do Brasil, também pôde ser observada em toda sua exuberância.

Foi uma viagem marcada por raridades, como o pato-mergulhão, uma das aves mais raras do mundo, que pudemos contemplar por cerca de 30 minutos, nadando calmamente nas águas cristalinas de um afluente do Rio São Francisco.

Durante o passeio ainda encontramos a fotógrafa Birdwatcher Silvia Linhares, dona de uma impressionante lista de mais de mil espécies de aves registradas! Guiada pelo amigo Geiser Trivelato, Silvia buscava justamente registrar o pato-mergulhão.Na foto, Camila Machado, Silvia Linhares e Alessandro Abdala.

Priscila, Nédio, Camila e Alessandro - O pôr do sol marcou o fim de uma expedição a um dos maiores santuários de vida selvagem do Brasil.

O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado
O Espírito do Cerrado

O mutum está voltando

Texto e fotos: Alessandro Abdala

“No meio da mata eu vi
Um piá de dois mutum
Piava que arretumbaba, maninha
Tum, tum, tum.”

Canção popular brasileira,
interpretada por Renato Teixeira e Paranga.

Passei minha infância na roça, entre as décadas de 1980/90, onde as atividades invariavelmente giravam em torno de aventuras na natureza. Andar pelas matas observando toda a diversidade de seres vivos era uma rotina diária. E tinha muito bicho para ver naquelas anos do fim do século passado. Mas de alguns, a gente só ouvia falar, como o mutum (Crax fasciolata). Por vezes ouvi os avós contarem de como eram abundantes na região, como eram presas fáceis para caça e sua carne saborosa. Quando vim ao mundo, porém, séculos de caça indiscriminada haviam cobrado o resultado e não pude, por décadas, conhecer esta ave - antes tão comum - a não ser pelos relatos dos antepassados.

Conhecida desde dos tempos coloniais, chamou a atenção dos naturalistas que visitaram o Brasil a partir do século XVII, Thomas Lindley, na "Narrativa de uma Viagem ao Brasil" em seu diário de agosto de 1803 assim descrevia um encontro com o mutum: "Caminhando pela orla da mata, vi pássaros de plumagem brilhantíssima, um deles quase do porte de um peru. O mutum é particularmente vistoso, de um azul profundo, que se aproxima do negro, tendo a cabeça e os olhos de notável beleza."

Avidamente perseguido como caça, era presa fácil de se abater por sua docilidade, como relatam os diversos viajantes que passaram por aqui ao longo dos séculos. Spix e Martius, em sua "viagem pelo Brasil no ano de 1817, relatam:

"O cercado da casa estava guarnecido com uma porção de cabeças de onça, e o proprietário da casa deu prova de ser um provecto caçador, pois, sob a sua guia, ainda antes de escurecer, matamos uma onça e um mutum. Essa bela ave não é rara, nas matas virgens daqui [sertão de Minas Gerais] em direção a Bahia. Os índios muito apreciam a sua carne, parecida pelo sabor com a do gado montês, com as suas penas negras lustrosas, que são empregadas como adorno. Encontra-se frequentemente o mutum domesticado nas casas dos índios, e parece-nos que, nos países mais quentes da própria Europa, eles poderiam naturalizar-se tão facilmente como a nossa galinha caseira."

O Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied que também visitou o Brasil entre 1822-1825 relata como o mutum se denunciava pela voz, facilitando a caça:
"o mutum é uma grande e bonita ave, encontrada somente onde existe a proteção de uma mata fechada(...) A primavera já ia muito avançada, e ouvíamos frequentemente, nas florestas, a voz forte e grave do "mutum" (Crax Alector, Linn) que ecoava pelas brenhas, facilitando muito a caça dessa grande e bela ave. Ela aparece em maior quantidade na época em que os rios enchem."

Karl Von den Steinen, em "O Brasil Central". Expedição de 1844 para a exploração do Rio Xingu, dá testemunho de como eram caçados no norte do país: "Castro caçou dois mutuns, oferecendo-me um para companheiro de canoa. Um deles é um mutum-"cavalo", o bico de um vermelho de lacre, todo fanfarrão, tendo na cabeça um penacho balouçante, um tanto parecido com o peru; é tão manso que lembra os pinguins da Geórgia. do Sul. O outro é um mutum-"pinim" menos belo e com um bico amarelo de ponta preta."

E o naturalista francês, Paul le Cointe chama a atenção para a facilidade de sua caça e excêlencia de sua carne:
"Mutuns - Bonitas aves, do tamanho de um peru; bico arqueado, tendo por cima uma protuberância córnea; poupa frisada; plumagem geralmente preta; cauda comprida. Amansa facilmente, mas engole todos os objetos pequenos que se acham ao alcance de seu bico: anéis, botões, moedas, dedais... Vivem na grande floresta em bandos pequenos; seu voo é pesado, ruidoso; pousam de preferência nos galhos grossos das árvores médias onde é facil alvejá-los; um mutum é uma soberba peça de caça, pela excelência de sua carne."

Um casal de mutuns. Transações da Sociedade Zoológica de Londres Vol 9 -1875-1877 - Joseph Smit.

O mutum está presente na cultura brasileira, com diversas expressões em nosso folclore, Geraldo Hoffman, em "O novo céu dos navegadores" relata que "Alguns índios do Norte do Brasil consideravam o Cruzeiro do Sul como sendo o "Pai-do-Mutum". O mutum é uma ave (...) predominantemente negra, tendo apenas o abdômen branco. Segundo índios do Brasil central o mutum celeste seria a mancha escura adjacente ao Cruzeiro do Sul, enquanto as estrelas da constelação formariam um laço (armadilha) para capturá-lo".

Henriqueta Lisboa, em coletânea de lendas e mitos brasileiros, relaciona a lenda "O mutum e o cruzeiro do sul":

"Estavam dois irmãos em sua casa quando de manhã ouviram um mutum cantar.
- Vamos, meu irmão, frechar o mutum que está cantando?
- Vamos, eu espero por ti.
Foram frechar. Quando lá chegaram e ouviram o mutum cantando, entesaram logo o arco, mas, olhando novamente, viram que era gente que estava sentada no pau.
O mutum falou imediatamente.
- Não me freches, meu neto. Queres ir comigo para o céu?
- Vou.
- Você quer então ir comigo?
- Vou.
- Então vamos já.
- Vamos.
- Eu vou adiante.
Foram logo para o céu transformados em estrelas."

Essa ave é um exemplo do resultado positivo da proibição da caça no Brasil a partir da década de 1970. Praticamente extinto da região sudeste, o mutum vem repovoando nossas matas ao longo das últimas quatro décadas, e atualmente já pode ser encontrado com facilidade no entorno das fazendas do interior de Minas Gerais, onde costuma se alimentar nos quintais, junto com as galinhas. Em Sacramento já pode ser visto até na área urbana, como na mata ciliar do Bosque do Ipê. Fique atento!

O  mutum está voltando
O  mutum está voltando
O  mutum está voltando

Alma de gato

Texto e foto: Alessandro Abdala

"Se gato tem alma,
Não sei não, senhor,
Mas o passarinho
Esse nome herdou.

De penas bem claras
Pousado no chão,
Não pia, nem canta
Qual assombração."
Aves do Sertão - István Major.

Quando menino, junto com meu irmão e primos, percorríamos os quintais e pomares das casas da roça sempre assombrados pelo vulto sorrateiro da alma-de-gato (Piaya cayana) esquivando-se fortuitamente por entre as folhagens. Impressionados pelas estórias que ouvíamos, conferíamos a esta ave uma existência quase sobrenatural. Impossível de se alvejar por pedra de estilingue ou de cair em arapuca, era uma presença fiel, mas pouco vista. Sempre habitando a parte mais escura da mata, de onde de tempos em tempos, emitia seu canto de origem onomatopeica: "Chin coã!"

É uma ave comum em todo Brasil, e em Sacramento pode ser vista até mesmo na área urbana, onde aparece nas casas que ainda tem quintais caçando lagartas por entre as folhagens.

Procurando entender a construção do mito em torno dessa ave, reuni alguns textos sobre esse passarinho de nome fantástico:

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Alma de Gato
Luís da Câmara Cascudo- Geografia dos mitos brasileiros.

Na galeria dos pavores infantis o mais curioso espécimem é o Alma de Gato. Não foi possível ainda materializá-lo. Atua unicamente pelo prestígio do nome, pela força da invocação, pelo poder da lembrança. Nele tudo é indistinto. Não tem forma, nem cor, nem processo para apanhar, maltratar ou raptar as crianças. Não sabem as imaginativas infantis como o Alma de Gato tortura ou se aproveita de suas vítimas.

Possívelmente nessa indeterminação aluncinante reside a melhor explicação do assombro.

Na Península Ibérica, na África, no Brasil indígena, todos os seres fabulosos tinham atitude e posição definidas. Alguns mais do que outros, mas todos guardavam linhas gerais de contorno bastante para caracterização identificadora no meio da espantosa fauna. O Alma de Gato é complexo, proteiforme, múltiplo, infixo. é rumor, é pressão, é som, é aragem, é movimento, é clarão. é uma entidade invisível e presente.

O sonho, o pesadelo, todos tem suas réplicas materiais na literatura oral indígena, negra e ibérica. O Alma de Gato passeia pelas inteligências meninas com grandeza disforme, imprecisa e tremenda, de uma perpétua ameaça.

Há entretanto, na ornitofauna brasileira, um pássaro com o nome idêntico. Pereira da Costa, no Vocabulário Pernambucano descreve-o assim:

Alma de Gato - Espécie de ave trepadora (Piaga cayanna, Less), a que os índios chamavam de Atinguaçu. A gente supersticiosa tem por mau agouro o canto desta ave.

O Alma de Gato é o mesmo Chincoã, o mesmo Tinguaçu que na Argentina e Paraguai sendo enterrado dá nascimento a uma planta que concede a invisibilidade a quem ponha uma folha na boca.ç sã essa aves núncios de desgraças, agourentas, espalhando terrores nalma dos indígenas. Deles herdamos instintiva repulsa, o incontido frêmito de medo inconsciente e secular.

O prestígio nebuloso do Alma de Gato, confundido aparentemente no felino, vem de remotas origens do Brasil selvagem, num pavor ancestral, obstinado e contínuo, de criança em criança, como um traço espiritual, indisfarçável e seguro.

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Cuculus cayanus. Ilustração de Mathurin Jacques Brisson - 1760.

Alma de Gato
Ademar Vidal

Entre os mitos da rua Direita existe um outro que vive nos quintais das casas de residência. Geralmente os quintais dessa rua, são pequenos, com um mesmo tipo retangular, cercados de muros e mais ou menos enfeitados de fruteiras. Nesta área restrita habita a alma de gato. Não tem hora para aparecer às crianças desobedientes. É uma sombra que passa numa esquina de parede; uma sombra que de repente se some atrás de uma porta ou de um móvel, ou que faz uma árvore do jardim balançar levemente; ou ainda um barulho que se ouve perto ou longe. Tudo serve. A alma de gato dispõe de uma agilidade rara. Durante o dia apenas se vê o impreciso. Ou, melhor: nada se vê, sente-se. A sensibilidade é que fica alerta e colhe os movimentos como se fora antena de rádio.

A luz do dia desencanta o mistério, tornando a vida mais real. Mas quando entra a noite, com todo o seu cortejo de bruxos, então é que a alma de gato começa a ser notada materialmente. Não se espantem: materialmente. Ela mostra toda a conformação física de um gato comum. Gato preto. Os olhos destilam luminosidades de fogo. A luz desses olhos é vermelha — e é de tanta intensidade que parece originária de archotes. O destino desse bicho não é arranhar, morder ou ocasionar males semelhantes. O seu destino tem formas mais suaves. Ele só se apresenta para despertar medo aos meninos. O seu vulto rápido na apresentação consegue obter o milagre de respeito só comparável a outros mitos de grande influência na imaginação infantil.

O prestígio da alma de gato toma conta de toda uma casa, principalmente o quintal, onde vive e reina com poderes imperiais. Com o dia o menino brinca solto e feliz no quintal de sua casa. A alma do gato anda por longe, nem se sente o menor sintoma. Porém, de súbito o vento balança fortemente o arvoredo e, se alguém disser alguma palavra sobre assombração, ou olhar cheio de curiosidade para um ponto qualquer, é o bastante — todos se lembram logo da alma de gato, enquanto uma onda de receio se avoluma e se ergue ameaçadora. Quando chega a noite, o fantasma fica senhor absoluto dos quintais. Nenhum menino tem coragem de ir lá fora sem ser acompanhado de gente grande. Não vai. Mesmo que a noite não seja escura, que a lua ilumine e dissipe as sombras, ainda assim o quintal se acha invadido do mistério da alma de gato, não sendo raro se notar um movimento, por mais sutil, que venha a confirmar a existência do mito. Às vezes é mesmo um gato que passa, ou um morcego que chia ou que põe abaixo um sapoti.

Os gatos da rua Direita são uns danados durante a noite. Fazem correrias medonhas. Afastam as telhas dos seus lugares. Brigam, só brigam por amor. Fazem uma gritaria infernal. E a raça cada vez mais se multiplica. A população de gatos anda quase em parelha com a população de gente. Esse barulho noturno é que mais infunde respeito e receio às crianças. Então, quando não podem dormir, e que a insônia lhes toma todas as preocupações, fazendo-as ficar de olho duro e enxuto, a rumorosa batalha dos gatos tem uma significação terrível. Raro é o menino que fica no seu berço ou que não reclama uma pessoa maior ao seu lado. A alma de gato toma posição e demonstra prestígio avassalador ao lado de outros duendes. A conseqüência desse temor traz certo descanso aos pais, principalmente às criadas, que são as que mais fazem ameaças e que, a todo momento, lembram os poderes extraordinários do mito animal.

O estranho nisso tudo é que nenhum malefício físico imaginário se pode esperar. Não é como outros fantasmas que acenam com a morte, que costumam carregar as crianças para longe, ameaçando, fazendo longas e maçantes viagens. A alma de gato é como se fora alma do outro mundo: só faz medo e mais nada; nem sequer se usa da velha frase: "Ele vem buscar você".

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Alma-de-gato também é título da canção de Tavinho Moura:

Alma de Gato
Tavinho Moura e Murilo Antunes

Beira de fogo é bom
Lugar pra tudo contar
Estórias de amedrontar
Se repará bem no ingá
No tom do jacarandá
Os seres vivos que há

Trinca ferro, alma de gato
Saci da mata tempera a viola
Os seres vivos que há
O homem não tem razão
Da própria vida matar
Ei andar, andar, andei

Na trama da sapucaia
Macaco vai se enredar
O sapo vai coaxar
E a cobra sissibilar, ô

Na hora do rompe ferro
Previsto de assombração
O curumim adormece
O curupira esse não, ai
Andei, andei, andei, andá

Beira de fogo é bom
Lugar pra se acalentar
O sonho de se sonhar
O sonho de se sonhar

Alma de gato
Alma de gato

Coruja do campo

Texto e foto: Alessandro Abdala

Jayme Caetano Braun foi um poeta do Rio Grande do Sul, um artista da palavra. A simplicidade de seus versos e a autenticidade de seus textos traduzem a natureza, o cotidiano, a alma e a cultura do povo gaúcho.

Jayme também era um payador, um repentista que recita seus versos de improviso, sempre acompanhado de uma guitarra. Esse tipo de arte é comum no sul do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile.

Deixo aqui uma belíssima composição de Jayme Caetano Braun, que trata de uma das mais conhecidas espécies dos nossos campos gerais do cerrado, a coruja-do-campo, ou coruja-buraqueira (Athene cunicularia).

Vale a pena ouvir o próprio autor declamando o texto:

CORUJA DO CAMPO
Jayme Caetano Braun

China esquisita do campo
Eternamente tristonha
Nessa cantiga medonha
Que apavora as noites largas
Tu carreteias as cargas
Dos pesares da querência
Na infindável penitência
De cantar cousas amargas

Outros cantam alegrias
Tu cantas penas e dores
E ao longo dos corredores
De poste em poste passeias
Te retorces, te volteias
De tudo quanto é maneira
Que nem china lambanceira
Fuçando em vidas alheias

Dizem uns, que és o fantasma
Do curandeiro charrua
Que vaga em noites de lua
Por divina maldição
E esse andejar pagão
De horrenda melancolia
Te escondes da luz do dia
Nas tocas, dentro do chão

Há, porém, outros que dizem
Velha bruxa de rapina
Que és uma formosa china
Transfigurada em megera
E que atrás da primavera
Que se foi, pra nunca mais
Vives cumprindo rituais
Nas tumbas e nas taperas

Dizem que quando tu gritas
Estás prenunciando morte
E que chamas a má sorte
A todo rancho onde sentas
E que as notas agourentas
Com que acordas soledades
São presságios de maldades
De lutos e de tormentas

Eu acreditava nisso
Velha e triste feiticeira
E na maldade campeira
Que identifica os piazotes
Vivia te dando trotes
Que hoje recordo com mágoa
Enchendo-te a toca d'água
Só pra judiar teus filhotes

Mas um dia me dei conta
Depois que fiquei adulto
Que nesse mísero vulto
Tão repleto de mistérios
És amiga dos gaudérios
E confidente reiúna
De todos os sem fortuna
Que dormem nos cemitérios

Tu és o pária do campo
Ninguém te empresta um afago
És a leprosa, do pago
Mal encarada e temida
Todos te negam guarida
O que, talvez, nem te importe
Porque se és a guardiã da morte
Só há morte onde existe vida

Por isso eu fico contente
Quando vens ao meu galpão
Me encho de satisfação
E até receio que fujas.
Gosto de tuas penas sujas
Da cor do chão que te abriga
Porque afinal, velha amiga
Nós todos somos corujas

Coruja do campo

Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão

A jornalista Camila Machado, Alessandro Abdala, Denise Cardodo e Vicente Antunes. Foto Ruth Gobbo.

Texto: Alessandro Abdala.
Fotos: Alessandro Abdala, Camila Machado, Denise Cardoso, Ruth Gobbo, Laysla Souza.

No começo deste mês de julho estive guiando junto com minha esposa Camila, os amigos Vicente Antunes e Denise Cardoso em mais uma aventura fotográfica no Parque Nacional da Serra da Canastra.

Apesar de não ser a melhor época para aves, este inverno nos revelou ótimos avistamentos e registros surpreendentes como os da águia-cinzenta (Urubitinga coronata)e o pato-mergulhão (Mergus octsetaceus).

Denise e Vicente: paixão pela fotografia e natureza.

Logo no primeiro ponto, mesmo antes de entrar no parque, fotografamos choca-da-mata, mariquita, trinca-ferro-verdadeiro, beija-flor-tesoura-verde, beija-flor-de-fronte-violeta, sebinho-de-olho-de-ouro, tiê-preto, tico-tico-rei-cinza, com destaque para um jovem soldadinho (Antilophia galeata) com a plumagem em período de muda.

Este soldadinho (Antilophia galeata) sub-adulto nos encantou com sua bela plumagem em transição.

Assim que entramos no parque encontramos um casal de bandoletas, espécie há muito procurada por Denise e Vicente, que fizeram ótimas fotografias.

A bandoleta (Cypsnagra hirundinacea)era uma espécia há muito procurada por Denise e Vicente, que nesta viagem puderam realizar o sonho de registrá-la.

Os endêmicos papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta) e corruíra-do-campo (Cisthotorus platensis) logo apareceram e permitiram excelentes registros sob uma luz especial, só encontrada nos vastos campos de altitude da Serra da Canastra.

Uma curiosa família de papa-moscas-do-campo se aproximou, eram pelo menos seis indivíduos, estavam muito calmos e permitiram lindos registros.

Furtivamente essa corruíra-do-campo deixava a vegetação densa, se exibindo por segundos para nossas lentes.

Apesar do inverno, os galitos (Alectrurus tricolor) já começaram a aparecer com maior abundância, alguns machos já apresentam a cauda de formato singular praticamente formada, como este da foto:

No finalzinho do dia, tivemos nosso primeiro contato com a grandiosa águia-cizenta (Urubitinga coronata), ao longe, pousada sobre um cupim. No dia seguinte, teríamos a chance de fotografá-la bem de pertinho, inclusive em voo. A águia mais rara do Brasil ainda é comum por aqui, sendo frequentemente avistada caçando nos campos naturais na região do Parna Canastra.

Do alto de um cupinzeiro a águia-cinzenta espreita os campos naturais em busca de presas. Pequenos roedores, mamíferos de pequeno porte, e até tatus estão entre as presas comuns dessa espécie extremamente ameaçada de extinção.

Com uma envergadura que chega a 2 metros, esse magnífico accipitrídeo tem um voo majestoso, que pudemos observar em todos os detalhes.

Enquanto fotografávamos a águia-cinzenta, um encontro inusitado - a fotógrafa Ruth Gobbo fazia um editorial com a modelo Nicolli Cerchi e aproveitou nosso jipe como cenário! Um momento de descontração enquanto revíamos velhos amigos.

Nossa Toyota Bandeirante serviu de cenário para a modelo Nicolli, em fotografia de Ruth Gobbo.

A fotógrafa Ruth em ação.Foto: Camila Machado.

Nédio Cerchi, Nicolli, Ruth, Alessandro e Camila - encontro de gerações. Foto: Laysla Souza.

Outra raridade da Canastra, o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) era um de nossos principais desejos de avistamento. Comentávamos sobre a possibilidade de avistá-lo nas primeiras horas da manhã, já que se encontra em período de reprodução, época em que os casais ficam mais calmos e passam mair tempo em pontos determinados do rio.

Iluminada pela primeira luz do dia, Denise fotografa a tiriba-de-testa-vermelha.

Tivemos sorte! Encontramos um casal de patos numa gélida manhã de julho, nadando calmamente nas translúcidas águas do Rio São Francisco. Um momento raro, carregado de emoção, que nos fez sentir o privilégio de ter a chance de contemplar uma cena tão especial.

O pato-mergulhão é hoje uma das aves mais ameaçadas do mundo, devido à perda de seu habitat natural: Rios de águas cristalinas, livres de barragens, com abundância de pequenos peixes e mata-ciliar preservada. Este casal de patos encontrou estas características nos primeiros quilômetros do Rio São Francisco, em cujas águas nadava soberano quando o avistamos.

Tive a sorte de documentar uma cena pouco vista, e quase nunca registrada: o voo do pato-mergulhão.

Durante a viagem, encontramos duas cobras muito interessantes atravessando a estrada-parque:

Esta, cujo desenho imita o de uma cascavel, possivelmente como recurso para afugentar predadores.

E essa linda cobra verde, que salvamos de ser atropelada. Foto: Denise Cardoso.

Ao final do dia um fantástico arco-íris, para fechar com poesia uma viagem primorosa, recheada de momentos de aventura e emoção, nesse santuário de vida selvagem que é o Parque Nacional da Serra da Canastra.

Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão
Fotografando raridades: águia-cinzenta e pato-mergulhão

Foto premiada no concurso "Aves Ameaçadas"

O Galito (Alectrurus tricolor), premiado no concurso "Aves Ameaçadas" no Avistar 2015. Foto: Alessandro Abdala.

Texto: Alessandro Abdala.
Fotos: Alessandro Abdala.

Tive a felicidade de ver esta foto do Galito receber o Prêmio Vox Populi, no Concurso Fotográfico "Aves Ameaçadas" do Avistar Brasil 2015.

A foto premiada foi feita em outubro de 2012, e retrata o galito (Alectrurus tricolor), uma espécie endêmica dos (hoje) quase extintos campos limpos do cerrado brasileiro.

O galito é uma ave notável, de tamanho diminuto (12 cm) cujo macho possui uma cauda singular, com as retrizes das penas viradas para cima, o que lhe confere um aspecto semelhante a de uma cauda de avião.

Atualmente só é encontrado nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul. A região de Sacramento, no Parque Nacional da Serra da Canastra abriga a maior população desta ave no Brasil atualmente. Na época de reprodução, ainda é comum vê-los voejando caracteristicamente pelos campos de capim nativo, inclusive no entorno do Parna Canastra.

Infelizmente, devido a substituição de seu habitat natural por empreendimentos agropecuários, a espécie encontra-se com Status de Conservação Vulnerável, sendo considerada ameaçada de extinção pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais).

Mas o mais importante é constatar que o birdwatching cresce cada vez mais no Brasil, e Sacramento MG se consolida como inquestionável destino nacional para a prática desta atividade, figurando mais uma vez em posição de destaque no maior evento do gênero no país. Sou grato e feliz por contribuir com esse feito.

Todas as fotografias vencedoras do concurso "Aves Ameaçadas" podem ser vistas aqui:
http://www.concurso2015.avistarbrasil.com.br/index.php/result#photos

Foto premiada no concurso "Aves Ameaçadas"

Na toca do inhambu

O inhambu-chororó (Crypturellus parvirostris) está sempre escondidinho atrás do capim, o que torna muito difícil registrá-lo.

Texto: Camila Machado.
Fotos: Camila Machado e Alessandro Abdala.

Já postamos foto do inhambu-chororó, e prometi postar um texto sobre ele. Em uma das minhas primeiras saídas, em um dia de muitos lifers, o primeiro que ouvimos foi o inhambu-chororó (Crypturellus parvirostris).

Claro que eu não sabia o que era, então como de costume, perguntei ao Alessandro que bicho era aquele com um canto tão peculiar. Sem muito entusiasmo respondeu e já me precaveu que o bichinho era arisco, que a chance de aparecer era mínima. Tentamos o playback, e eles vieram! Sim, eram dois! Sorte de iniciante, só podia!

Estavam em uma matinha fechada, e de pronto responderam ao playback. Dois lindos inhambus saíram de sua toca e com os olhinhos assustados procuravam quem cantava de inhambu no terreiro deles.

Isso aconteceu no sábado à tarde, com pouquíssima luz, fotografar no meio da mata foi impossível. Decidimos voltar então no domingo bem cedo, ao que nós chamamos então de “a toca do inhambu”. Ligamos o playback, e eles não apareceram, mas eu precisava vê-los novamente, e insistimos mais um pouco.

Desligamos o playback e, um dos inhambus resolveu dar o ar de sua graça. O local era de pouca luz e foi muito sorte conseguirmos algumas fotos. Fiquei bem próxima deles, imóvel, sentada no chão, e não sabia se admirava ou fotografava.

A minha foto do inhambu (um pouco tremida devida a baixa velocidade do obturador: 1/50 segundos) no momento em que ele executava o seu belo canto. Mas foi muito emocionante fazê-la! Foto: Camila Machado.

Incrível, como ele não deixava se mostrar totalmente. O inhambu atravessava de um lado para outro, sempre entre as gramíneas do lugar, com aquela carinha de bichinho perdido.

Ligamos o playback mais um pouquinho, e ele reaparece então como o “dono do terreiro”, na sua altivez de inhambu chororó, com o seu biquinho que soa um canto alto e imponente. Desligamos o playback e ficamos só observando o bichinho andando de um lado para o outro, certificando-se que não tinha nenhum outro inhambu na sua toca. Certo disso, saiu escondidinho, mas ficou um tempo nos observando de rabo de olho, um olhinho muito lindo por sinal.
Uma foto do arquivo do Alessandro, que mostra os detalhes e a beleza do inhambu-chororó.

Na toca do inhambu
Na toca do inhambu
Na toca do inhambu

Os Pássaros

Esse saí-azul (Dacnis cayana) fez a nossa alegria em uma fria manhã de outono.

Texto: Camila Machado.
Fotos: Camila Machado e Alessandro Abdala.

Há tempos não posto nenhum texto, devo confessar que temos saído pouco para passarinhar, devido principalmente ao excesso de trabalho. Mas, porém, todavia... "eles passarão e eu passarinho", ou melhor, nós “passarinharemos” sempre.

No último domingo de manhã, experimentei minha primeira passarinhada com frio. Pulamos cedo da cama e antes das seis já estávamos na Usina Santo Antônio, uma pequena hidrelétrica localizada no ribeirão Borá, no município de Sacramento. Dia típico de outono, céu claro e muito frio. Os passarinhos na verdade estavam lá, mas também estavam com frio. Ouvimos diversas vocalizações em uma área de mata fechada, mas esses não nos deram o ar da graça.

O saí-azul macho (Dacnis cayana) parecia se alimentar da poupa desses frutos da pindaíba (Xilopia aromatica).

Decidimos Caminhar até uma construção abandonada, no topo de uma montanha, de onde poderíamos observar os bichinhos do alto e também tomar um pouco de sol. Logo apareceu um lindo casal de saí-azul (Dacnis cayana). Eles passarinhavam nas flores vermelhas de uma pindaíba (Xilopia aromatica), e parece que se alimentavam dos frutos dessa planta.

A fêmea do saí-azul nos deu ótimas oportunidades para foto, como essa feita pelo Alessandro.

O macho sempre vistoso com o seu azul profundo, e a fêmea, fazendo graça e se escondendo entre o colorido das flores e o verde da imensidão do Vale do Cipó. Toda verde azulada na sua dança de sedução. Esse casal fofo foi nossa companhia durante horas. Sumiam e apareciam. Consegui bons cliques e o Alessandro cliques brilhantes.

A nossa calma manhã ensolarada e fria de domingo, de repente transformou-se em um remake do filme "Os Pássaros", de Hitchcock, mas sem espantos. Os pássaros não nos atacaram. Mas, em um piscar de olhos o que era apenas um taperuçu-de-coleira-branca (Streptoprocne zonaris) voando solitário no céu com seu design aerodinâmico, de repente tornou-se centenas, e em mais um piscar de olhos, milhares.

A foto que consegui fazer quando o bando de taperuçus já estava se dispersando dá uma ideia, mas não cosegue mostrar a quantidade enorme dessas aves que apareceram de repente. Foto: Camila Machado.

Uma imensidão sem fim de taperuçus-de-coleira-branca voando na altura de nossos olhos e dando rasantes que por vezes nos faziam desviar a cabeça, com medo de sermos atingidos! Eles se exibiam em bando e eram tantos e passavam tão próximos que podíamos ouvir os sons de suas asas batendo.

O Alessandro fotografando os taperuçus... Foto: Camila Machado.

O preto e branco manchou a imensidão verde azulada. O que nos deu oportunidade de fazer boas fotos dessa espécie que geralmente só vemos voando bastante alto. Cena incrível.

...E aqui o resultado, uma foto legal de um bicho muiiito difícil de se registrar.

No momento em que os taperaçus foram embora, em um galho bem longe pousou preguiçosamente um urubu-rei (Sarcohampus papa). Era a minha chance de fotografá-lo, pois nunca consegui. Mas a manhã também estava fria e preguiçosa para ele, que não quis voar, ficou tomando sol, de todos os lados, e nos deu um chá-de-cadeira. Ficamos cerca de uma hora esperando o urubu-rei ao menos se levantar, mas nada feito, fomos embora e deixamos o bichinho se esquentando no sol.
O meu registro do urubu-rei (Sarcohampus papa)feito de bem longe. Continua o desejo de conseguir uma foto melhor dessa ave magnífica! Foto: Camila Machado.

Os Pássaros
Os Pássaros
Os Pássaros
Os Pássaros
Os Pássaros
Os Pássaros
Os Pássaros

Que bicho é esse?

A ariramba-de-cauda-ruiva (Galbula ruficauda) parece um beija-flor, mas não é. Pertence a uma outra família de aves de colorido intenso que se alimentam capturando insetos com o bico. Foto Camila Machado.

Texto: Camila Machado
Fotos: Camila Machado e Alessandro Abdala

A passarinhada do último final de semana ocorreu em dois dias, sábado à tarde e domingo pela manhã. No sábado o tempo mudou, ficou escuro demais e resolvemos voltar no domingo, para continuar nossa expedição e ter mais sorte em fotografar o inhambu chororó (Crypturellus parvirostris), que nos recepcionou com seu canto assim que colocamos os pés nas margens do Rio Grande, região do Cipó, local próximo a Sacramento. (A caçada ao inhambu merece um post único, que logo será publicado).

Sorte de iniciante foi conseguir capturar o inhambu-chororó (Crypturellus parvirostris). Bicho bonito e desconfiado, que resolveu nos dar o ar de sua graça. Uma dica para diferenciá-lo do seu congênere, inhambu-xintã, é atentar para as pernas vermelhas - na foto não aparece, mas deu para ver in loco. Este da foto é uma fêmea, que tem o bico totalmente vermelho. Foto Camila Machado.

No sábado, mesmo armando chuva, minha cabeça não parava de girar para ver uma espécie nova a cada minuto, e quase enlouqueci com a variedade de cantos e vôos.

A minha pergunta mais frequente foi: que bicho é esse?

Os observadores de pássaros levam tão a sério o estudo da vida das aves, que tornam-se enciclopédias ambulantes, e não é fácil conhecer todos os bichos pelo voo ou canto. Depois que o Alessandro aprofundou-se na arte do birdwatching, eu sei que passarinho não é só passarinho. Eles, como todos os seres vivos são divididos em classe> ordem> família> gênero> espécie. Só no Brasil são mais de 1900 espécies, segundo o CBRO (Comitê Brasileiro de Registro Ornitológicos). Na região do cerrado o número gira em torno de 600 espécies diferentes, a última lista publicada para Sacramento e Serra da Canastra, indica 403 espécies. No WikiAves (que eu costumo chamar de Facebook dos pássaros – Mas que é muito mais que uma rede social para quem gosta de passarinho, com um valor científico e educacional inestimável) existe uma publicação excelente e muito interessante (http://www.wikiaves.com.br/aves) sobre as espécies que ocorrem no Brasil.

Mesmo antes de chegar ao destino, encontramos essa fêmea de mutum-de-penacho (Crax fasciolata) na estrada. Essa foto estava praticamente perdida, pois tinha ficado muito escura, mas foi salva pela edição. Foto Camila Machado.

Claro que alguns são fáceis de identificar, pois são únicos, por exemplo o Galito (Alectrurus tricolor), Soldadinho (Antilophia galeata), mas nem tudo são cores no mundo da observação de aves. Espécies do gênero Eleania e Myarchus, por exemplo praticamente não apresentam diferenças em campo, ficando a identificação pelo canto ou algum detalhe quase imperceptível de plumagem. Então, com muita força, foco e aventura, devagar vamos conseguindo identificar as espécies que encontramos pelo caminho.

As aves do gênero Eleania são praticamente idênticas. Só os mais experientes conseguem identificá-las pelo canto, ou algum outro detalhe que só eles veem. Foto do arquivo do Alessandro.

Quem já tem olho treinado, conhece pelo voo (na nossa última saída o Alessandro identificou uma águia-pescadora há quilômetros de distância, só pelo voar do bichinho), mas para os iniciantes é necessário muito estudo e observação constante. Geralmente os birdwatchings são super-colaborativos e sempre ajudam os iniciantes nas identificações. Claro que não vamos brincar de aula de biologia e decorar as famílias, ordens etc.. isso vai ocorrendo naturalmente.

Águia-pescadora (pandion haliaetus)fotografada de muiiiito longe pelo Alessandro com a 600mm. É uma ave muito elegante e imponente, pena que não se aproximou mais.

Aqui depois de mergulhar no rio e capturar um peixe. É incrível como ela consegue ser rápida e precisa. Foto de bem longe, feita pelo Alessandro com uma tele 600mm.

Na nossa última aventura, avistamos cerca de 30 espécies diferentes. Vou colocar fotos de algumas, com dicas para identificá-la:

O curió (Sporophila angolensis) pertence ao gênero dos Sporophilas, que são pequenas avezinhas que se alimentam de sementes de capim e tem o canto bonito. Uma dica para identificá-las é atentar para o bico "rombudo" que elas possuem.

O chorão (Sporophila loucoptera) também pertence ao gênero dos papa-capins. Assim como o curió, é bastante perseguido como ave de gaiola por causa do seu belo canto. Nesta foto procurei valorizar a composição mostrando a planta onde ele pousou. Foto Camila Machado.

Esse casal de curutiés (Certhiaxis cinnamomeus)pertence ao grupo dos furnarídios, o mesmo do joão-de-barro. Quase todos dessa família tem esses tons de marrom na plumagem.

No final da tarde, quando a luz já tinha ido embora, aproveitei para fazer fotos de silhueta, como esta do suiriri. Foto Camila Machado.

Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?
Que bicho é esse?

Força e foco

Texto: Camila Machado
Fotos: Alessandro Abdala e Camila Machado

Amigos,

A partir de agora minha esposa, a jornalista Camila Machado, passará a me ajudar na produção e organização do conteúdo do site, inclusive aqui no blog.

Seus depoimentos pretendem exprimir a visão de uma iniciante na atividade de fotografia de aves e mostrar que o birdwatching pode ser praticado por qualquer pessoa.

Abraços, e fiquem com o texto da Camila.

Alessandro Abdala.

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Sou a Camila Machado, esposa do Alessandro. Me formei em jornalismo porque gosto de escrever. Quase nunca saí para observar pássaros, apesar de achar a atividade algo interessantíssimo, surreal na verdade. Este ano será diferente... Vou observá-los e escrever aqui nossas aventuras nos Sertões das Gerais e quem sabe no mundo todo. Pretendo passar aos leitores a visão de uma iniciante, intercalada com a do já experiente Alessandro Abdala sobre o mundo do birdwatching. Espero que se divirtam com a gente!

Já observei pássaros antes, não por vontade própria, mas por estar acompanhando meu querido companheiro que vive com passarinhos na cabeça, literalmente. Pela nossa convivência, conheço algumas espécies, algumas vocalizações... sei bem que observar é uma paixão, daquelas avassaladoras, que deixam o olhar vivo e os ouvidos atentos, emoções a mil.

Temos buscado um novo olhar na fotografia de aves. Imagens que fujam do 3x4 da ave e busquem retratar o ambiente contextualizado com os seres que o habitam. Nessa foto, a típica paisagem rural do interior de Minas Gerais onde os polícias-inglesas-do-sul (Sturnella superciliaris) aproveitam os moirões de cerca como poleiro. Foto de Camila Machado, usando uma Nikon D40 + 300mm f/2.8.

Em minha primeira experiência como observadora e fotógrafa de aves procurei fazer fotos que mostrassem o ambiente em que a ave vive, como esse campo florido que o polícia-inglesa escolheu para pousar. Sei que o foco não está preciso, e a ave é um pontinho pequenininho no meio da cena, mas a intenção é mostrar algo mais que o retrato de um passarinho com penas bem definidas. Foto Camila Machado.

Aqui uma foto do polícia-inglesa feita pelo Alessandro com a 600mm, no estilo tradicional de dar ênfase na ave com fundo limpo e boa definição.

Conheço várias espécies através das fotografias do meu observador preferido, Alessandro Abdala, não vou negar que mesmo sendo uma atividade cansativa (no sentido físico), observar minha espécie preferida fora da tela do computador (Soldadinho, ô bichinho bonito!) foi uma das maiores emoções que já tive. Na foto ele parece grande e imponente com o seu chapéu vermelho, mas lá no meio da mata úmida é um bichinho tão pequeno, quase invisível, e seu penacho parece uma tocha, a natureza é realmente algo incomparável.

O soldadinho (Antilophia galeata) foi o responsável pelo meu despertar para a observação de aves. Foto do arquivo do Alessandro.

Observar pássaros para mim era uma missão quase impossível, fotografar então, um sonho. Como focar um ser tão pequeno? Essa será minha missão em 2014, que foi iniciada no último sábado. Dia nublado, mas quente, pouco vento, entorno da Serra da Canastra, cerrado mineiro. Fomos nós na nossa valente Bandeirante à procura do clique perfeito.

Típico cenário rural do entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra, por onde andamos procurando as aves. Foto de Camila Machado.

Não, à procura dos passarinhos, o que quisesse aparecer para nós, fazer pose e nos encantar com sua presença, a prioridade era observar e se a situação permitisse, eternizar o momento com um registro fotográfico. Tenho certo conhecimento em fotografia, mas jamais fotografei pássaros. Era o meu debut na fotografia do seguimento, e a primeira regra é sempre força e foco.

O cochico (Anumbis anumbis) constrói um ninho grandão, com gravetos e outras coisas que ele coleta com o bico. Foto de Camila Machado.

Muita força para segurar a tele de abertura 2.8, e ao mesmo tempo conseguir focar o pássaro. O primeiro que nos deu o ar da graça e ficou voando o seu voar amalucado foi o polícia-inglesa-do-sul (Sturnella superciliaris), muito bonito, com seu vermelho vivo em contraste com o preto fosco. Consegui algumas boas fotos.

A foto mais fácil, os quiri-quiris (Falco Sparverius)são calmos, ficaram pousados um bom tempo, os galhos secos permitiram uma composição interessante. Não sai do carro para fazer a foto e usei a janela da Bandeirante como apoio.Foto Camila Machado.

Depois vieram um casal de cochichos (Anumbis anumbis) fazendo ninho, uma noivinha-branca (Xolmis velatus) solitária, um casal de quiri-quiris (Falco sparverius) fazendo pose, urubu-rei (Sarcohamphus papa) voando bem alto no topo da serra, e o melhor de todos: o gavião-caboclo (Heteropizias meridionallis), todo bonito com o seu voo cinematográfico, com direito a fotografá-lo devorando uma presa e depois em voo (sonho de consumo, sempre quis fotografar aves em pleno voo).
O gavião-caboclo capturou uma presa e veio comer nesse tronco, a vítima era uma ave pequena, acho que uma codorna. Foto de Camila Machado.

Estávamos perseguindo o gavião, que logo encontrou o seu par. No primeiro momento não consegui pegá-lo em pleno o vôo, mas depois ele não me escapou e realizou um dos meus sonhos. Aves de rapina voando são um encanto só, para mim são os voos mais bonitos. Foto Camila Machado.

No final do dia flagramos um grupinho de canários-da-terra brigando, provavelmente pela disputa de território. Foto de Camila Machado.

Nosso dia só não foi mais produtivo devido à chuva que caiu incessantemente (fato comum na região da canastra nessa época do ano), mas a minha iniciação foi precisa, certeira, começo a entender a poderosa vontade que move os birdwatchers, a busca incessante pelo vislumbre de momentos sublimes. Quero voltar novamente, com mais força e foco.

Força e foco
Força e foco
Força e foco
Força e foco
Força e foco
Força e foco
Força e foco
Força e foco
Força e foco
Força e foco

Foto publicada no Handbook of the Birds of the World

Capa do volume especial do Handbook of the Birds of the World

Nesta semana recebi um exemplar da edição especial do Handbook of The Birds of the Word, onde consta uma foto minha publicada. O HBW trata-se da maior e mais conceituada publicação anual sobre ornitologia e birdwatching do mundo. Editado na Espanha, pela Linx Edicions, esta edição especial, que é histórica, além de primorosas fotografias, traz a descrição formal de 15 novas espécies de aves da Amazônia, com a participação de vários pesquisadores brasileiros.

A foto publicada retrata um urubu-rei (Sarcoramphus papa) e foi realizada em janeiro de 2012, enquanto guiava o amigo João Sérgio Barros pelo Parque Nacional da Serra da Canastra em uma expedição em busca da águia-cinzenta (Urubitinga coronata).

Particularmente fiquei muito feliz em ver meu trabalho publicado junto com o de feras da fotografia de aves nacional, como Edison Endrigo e Ciro Albano, além de mestres da fotografia de natureza do mundo, como Tim Laman.

Mas a satisfação maior está em poder ver o nome da minha cidade, Sacramento, Minas Gerais, Brasil, divulgado em uma publicação mundialmente respeitada e conhecida como o HBW.


Esta edição é ricamente ilustrada com primorosos desenhos de diversas espécies de aves.


Um exemplo das páginas com fotografias que ilustram o volume.

Foto publicada no Handbook of the Birds of the World
Foto publicada no Handbook of the Birds of the World
Foto publicada no Handbook of the Birds of the World
Foto publicada no Handbook of the Birds of the World
Foto publicada no Handbook of the Birds of the World

Mais de trinta lifers

O japú (Psarocolius decumanus) foi uma das espécies observadas pela primeira vez por Geraldo e Neusa Luiz.

"Lifer" é o termo utilizado pelos birdwatchers para designar uma espécie de ave observada pela primeira vez. O termo deriva de "life list", lista pessoal, em inglês, na qual o observador registra cada nova espécie observada e assim vai construindo a lista das aves vista ao longo da vida.

No Brasil, a palavra lifer pode ser usada para contabilizar somente as espécies fotografadas pela primeira vez, como faz o Geraldo Luiz, do interior de São Paulo, a quem tive a grata oportunidade de acompanhar neste final de maio, durante dois dias fotografando aves no Parque Nacional da Serra da Canastra.

Fotografamos o tico-tico-rei-cinza (Lanio pileatus) que por este ângulo revelou as cores vibrantes de seu topete.

Geraldo, que já contava com uma lista de 238 espécies fotografadas pôde acrescentar mais 30 novos registros à sua life list, e isso em apenas dois dias na Canastra!

Camuflado pelo o capim, entre a névoa do amanhecer, Geraldo fotografa as patativas (Sporophila plumbea).

Geraldo trabalha em parceria com sua simpaticíssima esposa Neusa, que auxilia na localização e identificação das espécies, anotando na caderneta e organizando com carinho cada novo registro feito.

Neusa Luiz, elegância e estilo no birdwatching.

Apesar da época do ano não ser a mais propícia, conseguimos algumas "jóias" do cerrado, desejadas pelos mais experientes observadores de aves, como o tico-tico-de-máscara-negra (Coryphaspiza melanotis), papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), patativa (Sporophila plumbea), bandoleta (Cypsnagra hirundinacea), cigarra-do-campo (Neothraupis fasciata), papagaio-galego (Alipiopsitta xanthops), águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus) e águia-cinzenta (Urubitinga coronata), entre muitos outros.

A águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus) passou planando baixo...

E a poderosa águia-cinzenta (urubitinga coronata) mostrou toda sua exuberância de caçadora rapinante.

No final da tarde, quando a luz já estava escassa, fizemos experiências com a velocidade do obturador, como com esse grupo de chopins.

Foi muito gratificante ver Geraldo e Neusa trabalhando em perfeita harmonia em um ambiente tão singular como os chapadões e campos floridos da Canastra.
Geraldo e Neusa Luiz, mostrando que a observação de aves é uma ótima atividade para ser praticada a dois.

Além das maravilhosas espécies registradas, fica o exemplo de que o birdwatching é uma atividade fantástica, que pode ser praticada por todos, inclusive casais, como Geraldo e Neusa, que já descobriram os encantos da observação a dois.

Mais de trinta lifers
Mais de trinta lifers
Mais de trinta lifers
Mais de trinta lifers
Mais de trinta lifers
Mais de trinta lifers
Mais de trinta lifers
Mais de trinta lifers

Estudando os Sporophilas

"Sporophila" é um gênero de pequenas aves da famíla Emberezidae. Patativas, caboclinhos, coleirinhos, curiós e bicudos fazem parte deste grupo.
A Patativa (Sporophila plumbea) é uma das espécies estudadas por Márcio Repenning.

Muito apreciadas por seus belos cantos, e por isso perseguidas como aves de gaiola, algumas espécies do gênero encontram-se hoje em sério perigo de extinção.
O coleiro-do-brejo (Sporophila collaris) apresenta diferentes padrões de plumagem ao longo de sua área de distribuição. Nesta foto, vemos um indivíduo com grande predominancia de branco.

O curió (Sporophila angolensis)desapareceu de muitos lugares do país devido a indiscriminada captura para criação em cativeiro.

Recentemente, acompanhando o amigo Márcio Repenning, de Porto Alegre-RS, pudemos conhecer um pouco mais de perto o comportamento e a biologia destas fantásticas avezinhas. Márcio atualmente desenvolve sua tese de dourado estudando a distribuição e os comportamentos migratórios de alguns Sporophilas, como a patativa, curió, e o coleiro-do-brejo.
Márcio Repenning e seu arsenal de equipamentos necessários para a pesquisa.
Por ser um reduto de alimentação e reprodução de várias espécies do gênero, a Canastra foi escolhida como ponto de coleta de dados para a pesquisa.

As aves do gênero Sporophila alimentam-se de gramíneas nativas, que são abundantes na parte alta do parque.

Espécies raras como o caboclinho-de-barriga-vermelha (Sporophila hypoxanta) visistam a região durante suas rotas migratórias.

Durante alguns dias, percorremos as partes mais longínquas e inacessíveis do Parque Nacional da Serra da Canastra, gravando a vocalização, fotografando e colhendo dados que irão embasar a pesquisa.

Concentração e silêncio na gravação da vocalização das aves.

Foi uma grande experiência poder aprender mais sobre essas espécies, e de alguma forma contribuir com tão relevante pesquisa científica.

Estudando os Sporophilas
Estudando os Sporophilas
Estudando os Sporophilas
Estudando os Sporophilas
Estudando os Sporophilas
Estudando os Sporophilas
Estudando os Sporophilas
Estudando os Sporophilas

Passarinhando com Flavia e Mônica - Parte II

Saiu mais um vídeo da expedição com as fotógrafas Flavia Costa e Mônica Leme.

O filme faz um resumo do primeiro dia de viagem, e mostra as espécies filmadas/fotografadas da cidade de Sacramento até a pousada Portal da Canastra, na entrada do Parque Nacional, passando pelo histórico povoado de Desemboque.

Destaques para o papagaio-galego (Alipiopisitta xanthops), papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), corruíra-do-campo(Cistothorus platensis) e galito (Alectrurus tricolor), que apareceram logo no primeiro dia, sem nem mesmo termos entrado na área do parque.

Em breve, novas partes dessa fantástica aventura. Fiquem ligados!

Passarinhando com Flavia e Mônica

Flavia Costa e Mônica Leme fizeram fotos e vídeos de raras espécies de aves na Serra da Canastra.

Durante os últimos dias de 2012 estive acompanhando as fotógrafas do Rio de Janeiro, Flavia Costa e Monica Leme em mais uma expedição fotográfica na parte alta do Parque Nacional da Serra da Canastra.

Conseguimos fazer excelentes fotos das curicacas(Theristicus caudatus), pousadas no chão, como nesta foto...

...E voando em grandes bandos, como neste flagrante.

Este jovem gavião-de-rabo-branco(Geranoaetus albicaldatus) também permitiu ótimas fotos de voo.

Foi uma aventura fantástica, marcada por grandes emoções. Afinal, cruzar cerca de 500 km a bordo de uma valente Toyota Bandeirante, vencendo os obstáculos diversos que as estradas da região apresentam nesta época do ano já é um desafio. Poder observar frágeis e ameaçadas formas de vida, adaptadas a um ambiente inóspito, torna a experiência ainda mais gratificante.

O caminheiro-grande, ave ameaçada e de difícil observação, permitiu excelentes fotos e vídeos

Em cinco dias de viagem, conseguimos registrar por foto ou vídeo oitenta espécies de aves diferentes. Algumas como o galito (Alectrurus tricolor), papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), caminheiro-grande (Anthus nattereri), tico-tico-de-máscara-negra (Coriphaspiza melanoti), encontram-se em vulnerável estado de conservação, conforme lista da IUCN, com reais ameaças de desaparecerem, principalmente, pela perda de seu habitat natural, os campos nativos do Brasil Central. Outras, como o campainha-azul, a águia-cinzenta e o mocho-dos-banhados, impressionam por sua beleza e imponência.

Mônica e eu, à espera do diminuto papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta). Foto: Flavia Costa.

Além das aves, belas e selvagens paisagens, ornadas por plantas de colorido diverso, compuseram o cenário para o avistamento do tamanduá-bandeira levando seu filhote nas costas, e uma família de veados-campeiros que corriam livres pelos chapadões do zagaia.

Na canastra a luz é abundante, ampla e indireta, proporcionando uma atmosfera especial, como nesta foto dos pica-paus-do-campo (Colaptes campestris).

Valorizando as composições
Sempre gosto de experimentar diferentes formas de composições fotográficas. No entanto, na fotografia de natureza, principalmente em imagens de aves, existe uma tendência em cropar cada vez mais a foto, privilegiando um enquadramento que em muitos casos, mostra apenas a ave e nada mais. O resultado, na maioria das vezes, são fotos que pendem mais para o lado técnico/científico, que artístico. Nada contra, mas particularmente acho mais interessantes imagens que retratam o ambiente em quem a ave se insere, cono no caso deste campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens):

O enquadramento na vertical, o plano mais aberto, e o tratamento sem exagerar na saturação buscam retratar com mais fidelidade o tipo de ambiente que a espécie costuma habitar.

Nem sempre é preciso exagerar no crop para produzir uma foto bonita. Aproveitar elementos do ambiente pode ajudar em uma composição harmoniosa. Papa-moscas-de-costas-cinzentas (polistictus superciliaris).

Pintassilgo Channel
Flavia e Monica editam o Pintassilgo Channel , um canal no youtube onde divulgam vídeos produzidos durantes suas viagens fotográficas.

A viagem pela Canastra rendeu um vasto material, a partir do qual as meninas editaram este vídeo que documenta algumas das espécies ameaçadas de extinção que ainda sobrevivem no parque nacional, o resultado ficou ótimo! Confiram:

Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica
Passarinhando com Flavia e Mônica

Belas e ameaçadas

O campainha-azul, ave endêmica dos campos rupestres do Brasil, figura com o status de "quase ameçada" na lista da IUCN.

Neste finalzinho de novembro guiando os amigos Nelson Cabral e Jaime Cano, de Orlândia e Ribeirão Preto SP, tivemos o privilégio de observar algumas das jóias raras e ameaçadas de extinção que habitam os campos limpos do Parque Nacional da Serra da Canastra.

Essas aves são extremamente sensíveis a qualquer alteração no meio ambiente em que vivem, pois se especializaram ao longo de milhares de anos a sobreviver nos campos limpos com capim nativo. Infelizmente a agricultura avança impiedosa. No entorno do parque, aparecem cada vez mais lavouras de soja, milho, batata, pontos de mineração... e os campos nativos vão cedendo lugar às máquinas e a exploração humana. O Parque Nacional da Serra da Canastra constitui um reduto para essas espécies cujo habitat se encontra cada vez mais reduzido.

Caminheiro-grande (Anthus nattereri) espécie ameaçada de extinção e de difícil observação em outras épocas do ano.

Neste período do ano (outubro a dezembro) as aves ficam mais ativas, e se tornam maiores as chances de encontrar espécies incomuns em outras épocas, como o andarilho (Geosita poeciloptera), o caminheiro-grande (Antus nattereri), o galito (Alectrurus tricolor) e o tico-tico-de-máscara-negra (Coryphaspiza melanotis) todas listadas pela IUCN - International Union for Conservation of Nature, como ameaçadas de extinção.

Andarilho (Geositta poeciloptera) ameaçado de extinção, costuma pousar no topo de pedras e cupinzeiros, de onde executa voos de exibição com batidas de asas sincronizadas .

O tico-tico-de-máscara-negra, também ameaçado de extinção pela destruição dos campos limpos em que habita, é uma das mais simpáticas aves do parque.

Ver o voo singular do ameaçado galito ainda é um privilégio para poucos aventureiros dispostos a desbravar um de seus últimos redutos.

Típico das áreas de campos rupestres com pedras expostas e arbustos pequenos, o campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens) cujo macho ostenta um azul vibrande (caerulescens signfica "da cor do céu" em latim) figura na lista da IUCN como quase ameçada, e costuma aparecer pela manhã dos dias ensolarados, proporcionando oportunidade de belas fotografias.

Durante a reprodução o macho do campainha-azul canta em um poleiro próximo ao ninho para delimitar o território.

Ainda tivemos a sorte de encontrar um tamanduá-bandeira (Mymercophaga tridactyla) que não se importou com nossa aproximação e se deixou fotografar com muita calma.

Nelson e Jaime fotografam o tamanduá-bandeira em seu ambiente natural.

A minha foto do tamanduá, feita com uma nikon D40 e lente nikkor 18-200mm.

Vimos ainda um lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), uma raposa-do-campo (Pseudalopex vetulus) e um veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), que cruzou a estrada principal do parque bem na nossa frente.

O veado-campeiro cruzando calmamente a estrada parque.

Nelson e Jaime puderam constatar de perto toda a riqueza de vida selvagem protegida pelos limites do Parque Nacional da Serra da Canastra.

Ao final da viagem, ainda encontramos este gavião-peneira (Elanus leucurus) caçando nos campos da parte alta do parque.

Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas
Belas e ameaçadas

Da incerteza, ao triunfo!

Daniel Santos, Rodolfo Eller, Luis Henrique, Daniel Esser, Guilherme Serpa, Paulo Couto e Ricardo Gagliardi fotografam o galito (Alectrurus tricolor) em uma área de campo nativo preservada no município de Sacramento MG.

Neste mês de setembro estive guiando os amigos Rodolfo Eller (Amigos das Aves e COA Sulfluminense), Ricardo Gagliardi, Guilherme Serpa (COA RJ), Daniel Esser, Daniel Santos, Paulo Couto e Luis Henrique (ECOAVIS MG) em uma expedição de quatro dias no entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra, no município de Sacramento MG.

O azulão (Cyanoloxia brissonii) foi um dos primeiros a aparecer, e permitiu observá-lo enquanto se alimentava calmamente destas florzinhas.

Um grupo grande e heterogêneo, composto por pessoas de idades diversas, e com diferentes experiências na observação de pássaros, mas com um traço em comum: o amor pelas aves.

O Birdwatching é uma atividade que pode ser praticada por pessoas de todas as idades.

O papagaio-galego (Alipiopsitta xanthops) também ofereceu ótimas oportunidades de fotografia

O passeio começou com incertezas: o Parque Nacional fechado devido aos incêndios que consumiram quase toda a área de preservação; as áreas de entorno também atingidas pelo fogo; um clima muito quente e seco contribuíam para que todos estivessem apreensivos, pois não sabíamos direito o que iríamos encontrar.

Felizmente Sacramento é um município imenso, que ainda conta com grandes fragmentos de campos nativos e matas preservadas, e foi nesses pontos que conseguimos encontrar a maioria das espécies que procurávamos.

Galito (Alectrurus tricolor), papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), andarilho (Geositta leocoptera) e corruíra-do-campo (Cistothorus platensis) se refugiavam nessas áres livres das queimadas.

O pessoal fotografando o galito (Alectrurus tricolor).

Ricardo e Guilherme aproximam-se camuflados pelo capim nativo...

...Já o Daniel Esser usa uma estratégia diferente, esperando calmamente até que a ave venha até ele. E não é que deu certo?!

Enquanto Ricardo gravava o canto da corruíra-do-campo.

Seguindo o fogo, gaviões-caboclo e de rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus) se aproveitavam das presas desnorteadas que fugiam das chamas devastadoras.

Do alto do céu, em formação, os gaviões-de-rabo-branco localizam as presas que fogem do fogo...

...Voando próximos às chamas, eles preparam o bote certeiro...

...E terminam por abater a presa indefesa. Nesta caso, um filhote de codorna-amarela (Nothura maculosa).

Apesar da dramaticidade, a ocasião se tornou propícia para excelentes fotografias, como esta do albicaudatus em voo.

Alimentando-se em uma carcaça encontramos um magestoso urubu-rei, que rendou ótimas fotos. Além de uma águia-chilena que inesperadamente passou voando baixinho, sem, contudo, oferecer oportunidade para fotografias.

O urubu-rei (Sarcoramphus papa) esteve por duas vezes visitando uma pequena carcaça na área de entorno do Parque.

Já no final da viagem, eu e o Paulo Couto resolvemos investigar uma pequena área de brejo, e qual não foi nossa surpresa ao encontrarmos um bando misto de Sporophilas, composto de dezenas de patativas e caboclinhos. Parecia que ilhadas pelo do fogo, as aves haviam se refugiado naquele pequeno brejinho.

No meio do bando, encontramos o escasso caboclinho-de-barriga-vermelha (Sporophila hypoxanta). Aí, tivemos de voltar conrrendo e chamar o resto da turma para fotografar! O bicho colaborou e deu oportunidade a todos de fazerem ótimos registros.

O caboclinho-de-barriga-vermelha (Sporophila hypoxanta) foi um belo achado já no finalzinho da expedição

No caminho, ainda encontramos uma fêmea de papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis), um bicho muito raro e com pouquíssimos registros na região. O Paulo Couto foi o único que conseguiu registrá-lo.

O papa-moscas-canela, fotografado pelo Paulo Couto.

Daniel Santos, eu, Paulo Couto e Luis Henrique, fechando a viagem no interior da Gruta dos Palhares, em Sacramento MG. Foto: Daniel Santos.

Essa foi uma expedição memorável, marcada por lances emocionantes e cheia de surpresas até o último minuto. Uma viagem em que nos sentimos tristes, pelas cenas dramáticas e chocantes da devastação provocada pelos incêncios criminosos, mas ao mesmo tempo felizes, pela constatação de que exuberantes e ameaçadas formas de vida ainda teimam em se perpetuar, nos arredores da incomensurável Serra da Canastra.

Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!
Da incerteza, ao triunfo!

Um "bate-volta" com direito ao lobo-guará


Celso, Claudio e Julio: em um único dia observaram raras espécies de aves e mamíferos.

No último dia 18/08, acompanhei os amigos Julio Silveira, Celso Queiroz e Cláudio Frateschi em um passeio rápido pela Serra da Canastra. O grupo partira de Ribeirão Preto e faria um "bate-volta" de apenas um dia, com o objetivo de conehcer o parque e fotografar o maior número possível das espécies de aves da Canastra.


Maracanã-verdadeira fotografada nas primeiras horas da manhã no caminho para o Parque Nacional

Partimos de Sacramento as 5 da manhã, passando pela vila histórica do Desemboque, onde observamos vários casais de maracanãs-verdadeiras (Primolius maracana) e papagaios-galegos (Alipiopsitta xanthops) que renderam ótimas fotografias.


Psitacídeos como o papagaio-galego, são bastantes comuns na área de entorno do parque.

Já no Parque, em apenas um dia observamos e fotografamos: galito, cigarra-do-campo, guaracava-de-topete-uniforme, papa-moscas-do-campo, cochicho, joão-de-pau, bandoleta, canário-do-campo, tucano-de-bico-verde, gralha-cancã, jacuaçu, suiriri-cinzento, águia-chilena e urubu-rei. Além de diversas saíras, beija-flores, pintassilgos, papa-capins e outras aves mais comuns. Ouvimos o tapaculo-de-brasília, que se recusou a sair no limpo, e vimos uma pequena e misteriosa saracura, que o Julio, entusiasta dessa família, suspeita ser Pardirallus maculatus, o que seria um novo registro ornitológico para o parque e região.


Nesta época, o galito ainda não está com sua plumagem reprodutiva completamente formada, mas já rende belas fotografias.


A estratégia especial do Júlio, para conseguir se aproximar do diminuto galito

Mas a maior emoção da viagem foi o inusitado encontro com o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). O maior canídeo nativo da América do Sul parece ser cada vez mais raro de ser observado no Parque Nacional da Serra da Canastra, e cada encontro com ele é sempre uma grata surpresa. Ainda neste dia, observamos uma raposa-do-campo, vários veados-campeiros e um tatu-pepa.


Com a lente 18-55, consegui fazer este sofrível registro, do cada vez mais esquivo, lobo-guará.

Foi uma aventura muito produtiva, cheia de surpresas e emoções, que apesar do cansaço, deixou nos participantes a certeza de terem presenciado um santuário natural, onde a vida silvestre teima em permanecer intocada, exuberante e bela, como no princípio dos tempos.

Um "bate-volta" com direito ao lobo-guará
Um "bate-volta" com direito ao lobo-guará
Um "bate-volta" com direito ao lobo-guará
Um "bate-volta" com direito ao lobo-guará
Um "bate-volta" com direito ao lobo-guará
Um "bate-volta" com direito ao lobo-guará

A fotografia de natureza levada a sério

Neste mês de agosto, graças a uma indicação do amigo Geiser Trivelatto, pude acompanhar os fotógrafos Gustavo Pedro, Virgígino Sanches e Nei Oliveira em uma expedição fotográfica pela Serra da Canastra. O grupo pratica a fotografia de forma séria e responsável, e com extremo profissionalismo registraram as aves, as plantas,as paisagens e os mamíferos do parque.


Com a temperatura esquentando, as plantas do cerrado começam a preparar nova "roupagem", como o pau-santo, que ganha novas folhas de tons vermelhos.

Apesar dos fortes e incessantes ventos que caracterizam o mês de agosto, foi possível fotografar aves incomuns como o andarilho, o galito, papa-moscas-do-campo, cigarra-do-campo, patativa, casal de urubu-rei e águia-chilena planando juntos, além de outras inúmeras espécies comuns do bioma cerrado.


O voo planado da águia-chilena pode ser observado nas manhãs dos dias mais quentes


Gustavo Pedro fotografa o tamanduá-bandeira

Avistamos vários bichos como o tamanduá-bandeira, que em alguns casos permitiu grande aproximação, por estar se alimentando, e rendeu ótimas fotos, inclusive possibilitando documentar os hábitos alimentares da espécie.


Mesmo sem estar com a teleobjetiva, consegui fazer este interessante registro do tamanduá se alimentando do principal item de sua dieta: cupins

Durante a viagem encontramos mais de uma dezena de veados-campeiros, até mesmo uma fêmea com um filhote recém nascido, que o Virgínio conseguiu registrar.


Virgínio Sanches fotografando um casal de veados-campeiros


Nessa viagem, os veados estavam extremamente calmos, permitindo boas aproximações e propiciando registros inusitados como esse.

Fogo
Agosto é o mês do vento, e infelizmente, também do fogo. Logo no nosso primeiro dia, recebemos a notícia de que parte do parque estava em chamas.

Chega a ser assustadora a visão de toda aquela paisagem cheia de vida se transformando em carvão em minutos. Felizmente, depois de dois dias de trabalho intenso e grande mobilização, os brigadistas conseguiram controlar o incêndio criminoso.

Fica aqui nossa homenagem a esses verdadeiros heróis, homens e mulheres de coragem, cujo trabalho garante a preservação da vida e a manutenção das espécies em um bioma frágil e já extremamente ameaçado.

AFNatura
Gustavo Pedro é presidente da AFNatura - Associação dos Fotógrafos de Natureza, uma entidade sem fins lucrativos que reúne pessoas que acreditam na fotografia como instrumento de valorização, defesa e divulgação do ambiente natural. Defender a vida, proteger o ambiente e disseminar o respeito pela natureza são os propósitos da AFNatura.


Gustavo Pedro é presidente da AFnatura - Associação dos Fotógrafos de Natureza

Para nós fotógrafos, é um excelente meio de fortalecer a classe e aglutinar interesses, serviços, e informações relativas a atividade. Eu já me associei, e deixo a dica para quem pretende levar a fotografia mais a sério, ou mesmo para os entusiastas que veêm no tema uma preocupação maior do que realizar meros registros fotográficos.

acesse o site e conheça o projeto: www.afnatura.ogr.br


Virgínio e Gustavo fotografam nos intocados campos nativos da Serra da Canastra.


Gustavo, Nei e Virgínio: fotografia de natureza com profissionalismo.

A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério
A fotografia de natureza levada a sério

Paixão de pai para filho

Semana passada estive guiando o amigo Paulo Batista e seu filho Gabriel que desejavam conhecer as aves que habitam a Serra da Canastra. Paulo e Gabriel já conhecinham o parque e suas principais paisagens, mas ainda não o haviam visitado com foco em observar e fotografar aves.

Sob uma luz maravilhosa, vimos e fotografamos as grandiosas emas, que inusitadamente, estavam extremamente calmas nessa ocasião.

A Canastra é um dos maiores parques nacionais brasileiros, em sua paisagem predominam enormes áreas de campo aberto, onde, para quem não tem o olhar treinado, parece não haver muita diversidade de espécies. No entanto, essas áreas de capim nativo guardam preciosidades de nossa avifauna, grande parte ameaçada de extinção.

Gabriel e Paulo fotografam o diminuto papa-moscas-do-campo, camuflado em meio ao capim nativo.

Pudemos ver e fotografar cerca de 80 espécies, algumas raras e ameaçadas como o galito, tico-tico-de-máscara-negra, bandoleta e o mocho-dos-banhados.
Galito (Alectrurus tricolor), endemismo do cerrado que precisa de grandes áreas de capim nativo para sobreviver.


Ameaçado de extinção, o tico-tico-de-máscara-negra (Coryphaspiza melanotis) costuma aparecer nas primeiras horas da manhã, quando a luz fica ideal para se realizar ótimas fotografias.

Mas o melhor dessa viagem, foi poder constatar que a observação de aves é uma prática que encanta pessoas de todas as idades. Gabriel, de onze anos, assim como o pai, é um apaixonado por aves. Conhece as espécies, compara, analisa e estuda no wikiaves, com uma empolgação e alegria de nos deixar emocionados.

Durante esta viagem, vimos mais de uma dezena de veados-campeiros, que estavam muito calmos, permitindo grandes aproximações.

Gabriel representa a síntese de que a nova geração certamente está mais conciente e preocupada com as questões ambientais. Ver pai e filho fotografando aves nos chapadões da Canastra sob uma luz inigualável foi uma experiência marcante, cheia de beleza e poesia. Capaz de nos deixar mais otimistas e renovar a nossa fé e esperança quanto ao futuro da nossa biodiversidade.

Paixão de pai para filho
Paixão de pai para filho
Paixão de pai para filho
Paixão de pai para filho
Paixão de pai para filho
Paixão de pai para filho
Paixão de pai para filho
Paixão de pai para filho