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A incrível jornada dos caboclinhos

05 / 02 / 2018

alessandro

Essas minúsculas aves viajam cerca de 3.000 km todos os anos, e usam a região de Sacramento como território de alimentação

 

caboclinhos migratórios que visitam Sacramento MG

Os caboclinhos são aves diminutas (medem entre 8 a 12 cm de comprimento) pertencentes ao gênero Sporophila, termo em grego que significa "aquele que gosta de sementes". Esse gênero da família Thraupidae engloba  mais de trinta espécies de aves especializadas em se alimentar de sementes de gramíneas. Dentro do gênero Sporophila, os caboclinhos formam um grupo de  mais de uma dezena de espécies, das quais pelo menos seis tem ocorrência sazonal registrada no município de Sacramento MG.

Devido ao seu canto melodioso e à plumagem atrativa, os caboclinhos, junto com os seus congêneres, as patativas, coleiros, bicudos e curiós estão entre os pássaros canoros mais queridos do Brasil. Sendo o  caboclinho-branco (fradinho) Sporophila pileata e o caboclinho S. bouvreuil os mais conhecidos na região de Sacramento e Serra da Canastra. Pássaros do mesmo gênero, extremamente populares na região também são o curió Sporophila angolensis, a patativa S. plumbea, o chorão S. leucoptera e o quase extinto na natureza, bicudo, S. maximiliani.

O caboclinho-de-barriga-preta (Sporophila melanogaster) é extremamente dependente das áreas de capim nativo.
O caboclinho-de-barriga-preta (Sporophila melanogaster) é extremamente dependente das áreas de capim nativo.


Os caboclinhos apresentam uma distinta coloração da plumagem. Enquanto os machos são mais coloridos, as fêmeas são uniformemente marrons, o que as torna praticamente impossíveis de se identificar visualmente, sendo necessário ouvir o seu canto para distinguir a espécie. A coloração dos machos caboclinhos varia conforme a espécie, predominando desde tons de cinza e negro como em S. melanogaster  até  os tons de cobre e prata predominantes em S. hypoxantha.

Habitantes dos campos naturais - aqueles constituídos por capins nativos - algumas espécies de caboclinhos realizam anualmente uma migração extraordinária. Periodicamente os caboclinhos deixam seus territórios de reprodução localizados  no sul do Brasil, entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (alguns, como S. cinnamomea e S. Palustris cruzam os limites nacionais chegando às áreas de pampa localizadas na  Argentina e Uruguai),  e empreendem uma jornada rumo as áreas de  invernada localizadas no cerrado do sudeste e centro-oeste do país, chegando a viajar mais de 3.000 km entre ida e volta! 

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Anualmente os caboclinhos realizam uma incrível jornada entre os lares de alimentação e reprodução, chegando a viajar mais de 3.000 km.

 

Entre fevereiro a julho de cada ano, os caboclinhos vão em direção ao norte, voltando para os territórios de reprodução entre setembro a novembro. Durante a jornada de volta, entre a primeira quinzena de outubro e última quinzena de novembro, os caboclinhos passam pelo município de Sacramento, onde param para se alimentar nas áreas de capim nativo, principalmente nas adjacências do Parque Nacional da Serra da Canastra. Caboclinho-de-barriga-vermelha, (Sporophila hypoxantha) caboclinho-branco (S. pileata), caboclinho-de-barriga-preta (S. melanogaster), caboclinho (S. bouvreiul), caboclinho-de-papo-branco (S. palustris), e caboclinho-de-chapeu-cinzento (S. cinnamomea) já foram registrados no município, sempre no final de outubro e início de novembro, época em que os caboclinhos formam grandes bandos mistos e junto com coleiros, patativas e pintassilgos percorrem as áreas onde as gramíneas nativas apresentam sementes, já que a maioria dos caboclinhos tem preferência por gramíneas nativas, preterindo as espécies exóticas, como a Brachiaria Sp.

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Um dos mais belos do gênero, o caboclinho-de-barriga-vermelha (Sporophila hypoxantha) pode ser avistado entre os meses de outubro e novembro em Sacramento MG.

 

Obstinados, os caboclinhos seguem sua jornada rumo ao sul, passando pelo interior do Estado de São Paulo, sempre a procura de áreas brejosas (cada vez mais exíguas) até chegarem ao seu destino de reprodução, na região sul do Brasil e parte da Argentina e Uruguai, em meados de novembro.

Por isso,  torna-se de extrema importância a manutenção dos campos naturais, os “campos de macega” como são conhecidos na região da Serra da Canastra.  Esses campos estão entre os ambientes mais ameaçados do Brasil atualmente, pois geralmente encontram-se em terrenos planos, de fácil acesso, onde o solo tem  boa umidade e fertilidade, o que os torna facilmente utilizados pela atividade agropecuária para o cultivo de lavouras e pastagens.

Costumeiramente os agricultores plantam nessas áreas por alguns anos e depois introduzem capins exóticos, formando pastagens. Como os caboclinhos tem preferência por sementes de capins nativos, a perda de seu habitat impede o seu ciclo de vida. 

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O caboclinho (Sporophila bouvreuil) visita as áreas de invernada na região da Serra da Canastra para se alimentar.

 

Essa é uma das principais causas que contribuem para que muitas espécies de caboclinhos estejam correndo perigo quanto à sua conservação. 

Por causa de seu canto elaborado, muitos são cobiçados como pássaros canoros e acabam capturados e vendidos pelos traficantes de aves silvestres. Por isso, espécies como o caboclinho-de-papo-branco (S. palustris) e o caboclinho-de-barriga-preta (S. melanogaster) hoje são muito raras, contando com pouquíssimos registros no Estado de Minas Gerais e figurando na lista de aves ameaçadas de extinção. 

Por outro lado, pouco sucesso tem sido obtido na reprodução dos caboclinhos em cativeiro.

Em Sacramento, por séculos as áreas de campo conviveram com a criação de gado, criado de forma extensiva para a produção de queijo. Entretanto nos últimos anos essas áreas naturais têm sido sistematicamente ocupadas pela agricultura, para plantação de soja e cana, principalmente na região do povoado de  Desemboque  e entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra, onde grandes fazendeiros chegam até mesmo a drenar e enterrar áreas inteiras de campos hidromorfos (brejos) - que são protegidos por lei - essenciais para a manutenção dos caboclinhos e outras espécies raras e endêmicas de aves.

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Caboclinho-branco (Sporophila pileata) é a espécie mais comumente encontrada na região da Serra da Canastra.

 

Ano após ano, os caboclinhos viajam quilômetros e enfrentam cada vez mais dificuldades em encontrar áreas propícias à sua alimentação, pois os brejos e campos do sudeste do Brasil tem desaparecido rapidamente. 

Com isso perdemos a chance de conhecer mais sobre essas fantásticas aves e corremos o risco de não mais sermos visitados pelos caboclinhos.

Preservar o seu ambiente – as áreas remanescentes de capim nativo -  e tornar os seus hábitos e características conhecidos da população em geral, torna-se imprescindível para manter a existência dessas aves peculiares.

 

Artigo originalmente publicado na Revista Destaque IN
Páginas 24 e 25 do artigo "A incrível jornada dos caboclinhos" originalmente publicado na Revista Destaque, revista cultural de Sacramento MG.

 

Artigo originalmente publicado na Revista Destaque IN
Páginas 26 e 27 do artigo "A incrível jornada dos caboclinhos" originalmente publicado na Revista Destaque, revista cultural de Sacramento MG.

 

Como podemos ajudar?

-Evitar a entrada do gado nas áreas de brejos e alagados, por meio de cercas ou outras barreiras.

-Proteger as áreas de campos nativos contra queimadas;

-Proteger as áreas de capinzais nativos da invasão de capins exóticos, como a braquiária e outros;

-Não plantar nada nessas áreas que não seja nativo;

-Não drenar as áreas alagadas onde existam capinzais nativos, nem fazer açudes que ocasionem alagamento das áreas de capinzais;

-Ajude a monitorar os caboclinhos, fotografe as espécies que aparecerem em sua propriedade e anote as datas em que foram observadas. Você pode postar a foto no WikiAves - www.wikiaves.com.br e assim contribuir com o conhecimento da distribuição geográfica dos caboclinhos e de seus movimentos migratórios, ajudando em sua conservação.

Os caboclinhos são um grupo de aves ainda desconhecido em muitos aspectos de sua biologia e qualquer observação poderá contribuir para melhorar esse conhecimento. Fique de olho neles!

 

Para saber mais:

>wikiaves.com.br/caboclinhos

>Silveira, Fábio Luiz.
Para Onde vão os Caboclinhos?
Rev. Cães e Companhia. n. 364 - Set. 2009

>Pivetta, Marcos.
A Origem dos Caboclinhos.
Rev. Pesquisa Fapesp. n. 236 - out. 2015 

>Cartilha Protejendo os Caboclinhos
Centro de Estudo Ornitológicos - CEO
 

Conheça mais sobre as aves da Serra da Canastra!

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