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Coruja do campo

22 / 05 / 2017

alessandro

Jayme Caetano Braun foi um poeta do Rio Grande do Sul, um artista da palavra. A simplicidade de seus versos e a autenticidade de seus textos traduzem a natureza, o cotidiano, a alma e a cultura do povo gaúcho.

Jayme também era um payador, um repentista que recita seus versos de improviso, sempre acompanhado de uma guitarra. Esse tipo de arte é comum no sul do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile.

Deixo aqui uma belíssima composição de Jayme Caetano Braun, que trata de uma das mais conhecidas espécies dos nossos campos gerais do cerrado, a coruja-do-campo, ou coruja-buraqueira (Athene cunicularia).

CORUJA DO CAMPO
Jayme Caetano Braun

China esquisita do campo
Eternamente tristonha
Nessa cantiga medonha
Que apavora as noites largas
Tu carreteias as cargas
Dos pesares da querência
Na infindável penitência
De cantar cousas amargas

Outros cantam alegrias
Tu cantas penas e dores
E ao longo dos corredores
De poste em poste passeias
Te retorces, te volteias
De tudo quanto é maneira
Que nem china lambanceira
Fuçando em vidas alheias

Dizem uns, que és o fantasma
Do curandeiro charrua
Que vaga em noites de lua
Por divina maldição
E esse andejar pagão
De horrenda melancolia
Te escondes da luz do dia
Nas tocas, dentro do chão

Há, porém, outros que dizem
Velha bruxa de rapina
Que és uma formosa china
Transfigurada em megera
E que atrás da primavera
Que se foi, pra nunca mais
Vives cumprindo rituais
Nas tumbas e nas taperas

Dizem que quando tu gritas
Estás prenunciando morte
E que chamas a má sorte
A todo rancho onde sentas
E que as notas agourentas
Com que acordas soledades
São presságios de maldades
De lutos e de tormentas

Eu acreditava nisso
Velha e triste feiticeira
E na maldade campeira
Que identifica os piazotes
Vivia te dando trotes
Que hoje recordo com mágoa
Enchendo-te a toca d'água
Só pra judiar teus filhotes

Mas um dia me dei conta
Depois que fiquei adulto
Que nesse mísero vulto
Tão repleto de mistérios
És amiga dos gaudérios
E confidente reiúna
De todos os sem fortuna
Que dormem nos cemitérios

Tu és o pária do campo
Ninguém te empresta um afago
És a leprosa, do pago
Mal encarada e temida
Todos te negam guarida
O que, talvez, nem te importe
Porque se és a guardiã da morte
Só há morte onde existe vida

Por isso eu fico contente
Quando vens ao meu galpão
Me encho de satisfação
E até receio que fujas.
Gosto de tuas penas sujas
Da cor do chão que te abriga
Porque afinal, velha amiga
Nós todos somos corujas